Nunca tinha refletido detalhadamente sobre como gostava de ser agarrada. Idealizava o contacto visual mantido por uns segundos - ou à distância enquanto cada um de nós segurava a sua bebida distante das pessoas que dançavam na pista ou já próximo quando nos entre-olhávamos no mesmo grupo de amigos e ao nos aproximarmos um do outro nos separávamos deles. Tinha, claro, planeado como gostava de ser beijada. Tinha sonhado com isso, tinha pensado nisso, tinha até tido um ou outro treino por aí. Um beijo que durasse pouco tempo, mas a saber a infinito. Apaixonadamente, sempre, porque ainda que não precisemos de estar apaixonados um pelo outro, é impreterível que nos apaixonemos pelo beijo que nos damos. As nossas faces a aproximarem-se, a permissão a que os nossos lábios se tocassem, a tua cabeça ligeiramente acima da minha, a tua mão na minha nuca, aproximando-me de ti, e eu com os meus braços à tua volta para que fisicamente nos enlaçássemos mais como a nossa intimidade mental urgia.
Em relação ao toque, pouco ou nada. Sentir o teu corpo, talvez, sentires o meu também, mas a questão era rapidamente ultrapassada com o pensamento de para onde deveria levar os meus lábios. Vezes e vezes sem conta o toque era só um degrau intermédio onde não se pousavam sequer os dois pés, um bastava, queria-se era subir de um em baixo para um acima, não é sítio onde se pare muito tempo. Mas o toque é o cerne deste texto. Há vários tipos de conhecimento. Sem entrar em pormenores, num desses tipos, o sujeito apercebe-se de que sabia dado facto no momento em
que dá por si a explorá-lo sem previamente ter noção de que o sabia; e no
momento em que me tocaste eu apercebi-me de que sempre foi assim que desejei
ser tocada. Nunca antes pensei em como queria ser agarrada, já confessei, aliás, por oposição
preocupava-me antes em como queria ser largada se me chegassem de facto a agarrar,
depois de ter pensado em como impedir que me agarrassem; mas depois de sentir
esse teu toque é impossível não me querer deixar cair nas tuas mãos.
As tuas mãos não pesam. São suaves e ainda assim sinto-as tanto. Estão em todo o lado. Quando me contornas,
vincas-me. Não se deixam andar imponderadas, tudo nelas tem um propósito – e sentir
que esse propósito sou eu extasia-me. Sinto as pontas dos teus dedos e circulam
em máxima definição por mim. São quentes; mesmo se frias aquecem-me. As tuas
mãos pedem permissão e concedem-na a si mesmas, são elas próprias a
chave. Foi através delas que acedeste a mim e são elas quem me tranca quando te
vais - depois de ti jamais concederia a alguém aceder-me, ninguém
tomaria tão bem conta de mim como tu; e como elas. São hábeis. Nasceram
particularmente dotadas, mas nota-se claramente que levam já muito treino. São
tão doces e tão picantes, fazem brotar sentidos em todos os sentidos, fazem-me procurar sentido para este sentido em que me deixo ir, andam em
sentido proibido que em tudo condiz com elas, não fosse o proibido o que é mais
apetecido.
Estamos encostados à parede. Com uma mão desapertas-me o
soutien, com a outra cobres-me com o teu casaco. Está toda a gente à nossa
volta, todos distraídos: uns, porque não nos vêm, outros, porque acham que nos vêm, mas ao olhar só vêm uma rapariga com frio e um rapaz que a aquece – e ironia
das ironias, a verdade é essa, mas apesar do frio eu escaldo. Não precisavas de me beijar, palavra
que essas mãos são mais quentes do que um beijo, mas até precisas, se não eu gemo.
Na minha mente, elas são um pincel e eu um quadro: estás
a fazer arte. Pinta-me toda, passa uma segunda e uma terceira camada, anda em círculos nos cantos; ou não. Tu és certamente o artista, eu uma fã da tua obra. A certa altura, agarras-me na cintura. As tuas mãos fazem força
mesmo. Já não é a cintura, agora é a anca. Mas o que é isso?
Eu cabo nas tuas mãos. Afastas-me as pernas e é para ficarmos mais próximos ainda. Sinto a palma da tua mão na minha coxa suada. Sinto tanta coisa ao mesmo tempo, quantas sensibilidades me induzes. Sinto uma palmada no rabo e de alguma forma irracional e encantadora isso para mim é amor. Não me baterias se eu não gostasse, os teus olhos dizem isso, uma subversão da moralidade porque entre nós os dois não há devassidão, mas um monte de concessões liberais e confidenciais que podemos explorar um com o outro. As tuas mãos visitam-me num ritmo tão bem induzido que posso não te amar a ti, mas vou amar para sempre as tuas mãos e este momento e a forma como me olhas. Estou aqui e estou tão longe daqui. Estou no controlo por ter as tuas mãos para mim, mas estás no controlo enquanto as tuas mãos estão em mim. Um ciclo, dominar e ser dominado com as tuas mãos e pelas tuas mãos. As tuas mãos apelam, é para isso que deviam servir as mãos, não para não se saber o que se deve fazer com elas. As tuas mãos dão sentido ao que está escrito nas portas dos restaurantes - elas que me empurram contra a parede, elas que me puxam para ti. Entrego-me às tuas mãos.
Eu cabo nas tuas mãos. Afastas-me as pernas e é para ficarmos mais próximos ainda. Sinto a palma da tua mão na minha coxa suada. Sinto tanta coisa ao mesmo tempo, quantas sensibilidades me induzes. Sinto uma palmada no rabo e de alguma forma irracional e encantadora isso para mim é amor. Não me baterias se eu não gostasse, os teus olhos dizem isso, uma subversão da moralidade porque entre nós os dois não há devassidão, mas um monte de concessões liberais e confidenciais que podemos explorar um com o outro. As tuas mãos visitam-me num ritmo tão bem induzido que posso não te amar a ti, mas vou amar para sempre as tuas mãos e este momento e a forma como me olhas. Estou aqui e estou tão longe daqui. Estou no controlo por ter as tuas mãos para mim, mas estás no controlo enquanto as tuas mãos estão em mim. Um ciclo, dominar e ser dominado com as tuas mãos e pelas tuas mãos. As tuas mãos apelam, é para isso que deviam servir as mãos, não para não se saber o que se deve fazer com elas. As tuas mãos dão sentido ao que está escrito nas portas dos restaurantes - elas que me empurram contra a parede, elas que me puxam para ti. Entrego-me às tuas mãos.
Essas tuas mãos que eu amei e amo, talvez porque nunca, tanto na cama como na vida, tive mãos algumas com tamanha ânsia por me segurar.