segunda-feira, junho 19

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever,
Porque bastava-me pensar para saber
Que sairía algo fraquinho.

De cada vez que adiava
Mais certezas me dava
E o texto que evitava
Era cada vez mais fraquinho.

Hoje, contudo, (e também devido a tudo), decidi escrever.
Mesmo sabendo que seria um texto fraquinho.

Porque talvez se for começando fique cada vez menos fraquinho;
Porque francamente me apeteceu;
Porque, quem sabe... vá a tempo de me salvar.

Eu explico este último:
O texto que não se escreve fica cada vez mais fraquinho,
Porque quem não escreve fica cada vez mais fraquinha nesse ofício.

Então aqui fica um texto bem fraquinho de quem já não escreve há tanto tempo...
Na tentativa de que se possa interromper - ou desacelerar - esse processo
E não continuar a ficar cada vez mais fraquinha.

E tanto tempo depois percebi como é precisa muita força
Para se escrever um texto fraquinho.

quinta-feira, agosto 5

Line of reasoning

 People get use to smells.

When we spend too much time in a room, we gradually stop to realize how it stinks.

(Sometimes, it's our own rotting).

sexta-feira, maio 29

Poemas sem saber

E de repente, à minha volta eram todos poemas;

os pais, fazedores de tempo onde ele escasseia,
a levarem os filhos no carro,
Cuidado, não fales com estranhos;

os filhos, com as saudades a sairem do corpo.
a visitarem os avós,
Que abraço maravilhoso, querida avó;

os namorados, suados de nervos,
a dizerem às namoradas,
   primeiro com os olhos e depois com os lábios,
Estás tão bonita.

E a natureza a acontecer
simultaneamente, isoladamente, em conjunto.

Via em tudo poesia,
Percebi que eram todos, os que eu vi e os que eu não vi.

Foi por descrever o que via
que o leitor lê agora este poema
que eu escrevi,
mas que foram eles que, ao fazerem o que faziam, o fizeram.

Todos fazem poemas: alguns só não os escrevem.

(Este poema vem da forma como eu vejo o mundo
   que é às vezes diferente da das pessoas que eu vi e me veem
   e às vezes igual à das pessoas que não vi e não me veem
   - há também pessoas que eu vejo e não me veem e vice-versa.

Os poemas podem ser formas de ver o mundo
   decorrem de formas de o ver
(mesmo quando são deliberamente ficção,
tem de ter sido neste mundo que o autor a imaginou)
   também o leitor terá a sua forma de ver
   e quando ler este poema talvez, nas palavras que escolhi,
   as nossas visões se encontrem
      ou divirjam
que "Bravo!" seria qualquer um dos casos:
de cada vez que um leitor lê um poema, ele cresce.)

segunda-feira, março 16

Isolamento

Vê-se da varanda a luz das janelas das outras;
Estão ali as pessoas.

As ruas não ouvem nada à noite -
Diriam, enganadas, que nunca os cosmopolitas estiveram tão calmos.

As luzes das varandas tremem;

[Não por sua intermitência,
mas pela falta de nitidez
própria de quem vê com os olhos em lágrimas.]

Agarrados à berma negra, de betão frio,
Molhada pela chuva que vai caindo indiferente,

Ai (escapa um ai num suspiro),
Sabem lá como será amanhã,
Sabem lá quando se volta a ser como ontem.

Hoje não há beijos, nem abraços,

[Mas nunca os olhos beijaram outros olhos com tanta ternura
Nem os nossos silêncios, comprometidos, se envolveram com tanta força.]

sexta-feira, dezembro 6

Este prédio não dá

Morava eu num edifício com vista mar a este.

Tinha
nas traseiras dessa janela
vista para muitos outros edifícios

E ao fim de tarde
Via-se nessa outra janela
O pôr do sol.

O meu sonho era ver um dia o pôr do sol
Na janela com vista para o mar.

Mas nunca acontecia.
Nem aconteceria.
Qualquer criança de 10 anos saberia logo que tinha de mudar de margem.

terça-feira, novembro 26

Poema para crianças crescidas

Os americanos sonham ir à Europa;
Os europeus gostavam de estar na América.

Desiluda-se quem acha que nasceram no lugar errado,
Que resolvia a questão a trocá-los.

É uma preferência relativa.

Os americanos não preferem a Europa
Nem os europeus preferem a América:

No final tudo se resume a serem pessoas -
E as pessoas acham que preferem o sítio onde não estão.

quarta-feira, janeiro 23

Não se fazem copos com pedaços de copos.

Se um copo estilhaça,
Se cai ao chão e parte,
Se por algum motivo quebra,
É difícil - quase impossível - voltar a ter o copo.

Mesmo se encontrados todos os pedaços irregulares,
Se apanhados do chão todos os ínfimos bocadinhos
(Ia dizer bocadinhos de copo, mas podem já não o ser se o não refizermos)
Teria de ser reconstuído com exatamente a mesma sequência de pedaços.

E mesmo se por sorte ou esforço encontrarmos essa sequência
(A contar com os grãos microscópicos de vidro em pó espalhados pelos azulejos e nas suas frinchas)
Não basta sobrepô-los -
Pedaços sobrepostos não geram um copo consistente.

Tivera sido mais fácil comprar um copo novo
E jogar fora os estilhaços.
Às vezes é mais eficiente e é mesmo do que precisamos. Para as visitas.

Mas se gostávamos mesmo daquele copo,
Talvez tenhamos de juntar os estilhaços e pensar no que fazer com eles.

O que não se pode fazer, contudo, é amontoá-los irrefletidamente e guardá-los no armário
Como se fossem um copo.

Copos desfazem se em pedaços de copos,
Mas com pedaços de copos não se fazem copos;
Às vezes fazem coisas que parecem copos
Mas não se iluda, minha querida: não são copos.

domingo, dezembro 9

Diagnóstico

A dona Ana procura com as mãos nervosas os óculos na mesa onde não os deixou. Procura-os depois no sofá onde também não os pousou. Trémula, a caminho do quarto (mas ainda sem ter saído da sala, porque a idade a leva num andar lento) deixa que adivinhem o que tenciona fazer e tomamos-lhe a vez na busca. Ajudamo-la a sentar, com cuidado, no cadeirão dourado da sala de estar e pomo-la a ver televisão. "Fique aqui tranquila que eu vou lá buscá-los" e vamos buscar os óculos, mas não há como a deixar tranquila. A Dona Ana tem um problema de lucidez.

Tal que regressamos com os óculos nas mãos e já está inquieta de novo. Não sabe como adivinhamos que precisava dos óculos - como tínhamos combinado há segundos atrás. Não sabe se é manhã ou já de noite. Não sabe se é hoje ou amanhã. Sabe, contudo, sempre que está para ser fim de semana que é quando lá vai a neta. E descobre com muito desgosto que é segunda-feira quando acorda e ela já lá não está. "Podia distrair-te para que perdesses o comboio", diz. Às vezes diz antes mais diretamente "Mas tu tens mesmo que ir trabalhar?". Ninguém leva a mal, todos se riem, a dona Ana tem um problema de lucidez.

A dona Ana quer passear. Vai de mão dada, devagar, e está tão dependente ao andar que a sentimos no nosso colo. Enche-nos de beijos quando estamos cansados para falar e de conselhos que ouve no telejornal que já estamos cansados de ouvir. É o que sabe do mundo lá fora, durante o dia, porque as suas pernas estão boas para estar em casa e não fazem os caminhos de que sente saudade na alma e no corpo de ter capacidade para percorrer. Reclama, muito, chorosa, de não se jantar sempre à mesma hora, de se passar tanto tempo a trabalhar e pouco em casa, de se ligar tanto ao futebol. Toda a gente perdoa e a sossega, é sabido que a dona Ana tem um problema de lucidez.

Estava a dar um jogo para o campeonato, mas fazemos-lhe a vontade e procuramos numa aplicação um vídeo de Fátima. Sem pedir permissão para se levantar, afasta a cadeira e, comovida, vai ao encontro da imagem da televisão para ver mais perto - há coisas que devem poder ser bem vistas. Atravessa a sala toda e quem lhe dera ter um lenço para acenar. Estamos todos a conversar e a dona Ana está ali mas também não está. Omnipresente e omniausente. Canta alto e com lágrimas no rosto moreno e ninguém lhe pede que pare de o fazer, a dona Ana tem o tal problema de lucidez.

Dá os melhores e mais meigos abraços. A tremer, a contar tudo aquilo por que teve de passar para estar ali, naquela cadeira, de onde sai a tanto custo e esforço e para a qual volta com não menos esforço e custo. Que sorte que temos de a ter ali connosco. Certamente é uma sorte também para a dona Ana ter-nos, mas a dona Ana está tão revoltada com os infortúnios, tão profundamente triste e tão secretamente (compreensivelmente) assustada que resmunga. Ai dona Ana, quem nos dera poder sossegá-la. Damos-lhe a mão e ficamos ali com ela. O tempo que for preciso, tudo o que for preciso, ninguém lhe nega nada: a dona Ana tem um problema de lucidez.

Já à noite, quando todos dormem menos ela, chama-nos. Com o silêncio tem receio de que tenhamos saído todos e nos tenhamos esquecido. Mas não nos esquecemos nunca da nossa querida dona Ana. Só que para garantir de que assim o é, cá vou eu ao seu encontro, de olhos meios fechados mas coração totalmente aberto. Dei contudo no caminho por mim a pensar que ainda não diagnostiquei o problema de lucidez da dona Ana em relação aos demais - não sei se lhe falta ou se a tem em excesso.

O tempo é o mesmo que dantes

Não tenho tido tempo para escrever.

Tenho tido o mesmo tempo de sempre
Para fazer todas as coisas,
Mas cada vez dedico mais tempo a menos coisas
E entre todas as coisas que tenho feito
Nenhuma delas tem sido escrever.

Oh sim, tenho tido tempo para fazer muitas outras coisas inúteis
Mais apreciadas pelos meus pais -
E com que certamente os maço muito menos
Porque tenho muito menos interesse nelas.

Choro a ver filmes, a ouvir ópera, a passear de barco.
Também choro a fazer contas às vezes,
Mais ainda quando faço contas à vida,
Mas isso são outros choros
- Que não vem da intuição mas do estômago.

Fazia um desenho, mas não tenho pintado.
Na realidade nunca pintei antes;
Decidi numa noite começar a fazê-lo no dia seguinte
Mas nesse dia cresci e já não deu tempo.

Agora que faço coisas importantes
(Que em nada importam à arte)
Não posso sequer voltar a cantar com candura.

Já não se fazem só as coisas que mais se querem,
Faço muitas coisas que quero assim-assim.

Como era bom fazer-se coisas que mais se quer
Mesmo sem se ter jeito...

Bom, agora faço coisas para as quais não tenho mesmo jeito,
Mas por estas pagam-me,

Então estas já são coisas a sério,
Estas passam à frente na fila do tempo
E a filosofia fica lá atrás à espera
E chega a meio da tarde e o banco fecha
E quem não tem vez não é atendido.

segunda-feira, maio 7

Fogo na aldeia antiga

Lacerei e sangrei por dentro quando ouvi
Que a aldeia tinha ardido.

Não me lembrava
Se tinha trazido de lá quem fui em tempos.

Será que me trouxe ou que lá fiquei?
Será que ardi?

Dói-me a incerteza
De não saber onde se encontra
Essa que ainda às vezes espreita
- ou que ainda hoje inteiramente sou.

Estarei a iludir-me a crer que me salvei
Quando na verdade vim sem mim?

Ai de mim, mulher fria, burra e cruel,
Se lá me deixei
À espera da hora de me levar
E não me levei
E me esqueci e me deixei
E não estou aqui;

Ai se jazo lá onde ardi a esperar.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...