Ai, ver-te por detrás dos teus olhos. Trespassar essas cortinas translúcidas e ver quem tu és por dentro. Gostar de ti pela forma, amar-te pelo conteúdo. Estar a ler Hemingway no sofá com o livro sobre as minhas pernas e elas não lhe tocarem porque entre mim e esse romance maravilhoso estão as tuas pernas, não menos maravilhosas. Ter contigo esta serenidade e aceitação, esta aura de um amor de sala, todo ele tão pouco ortodoxo, fugido das convenções de um amor de quarto e não meramente prático como um amor de cozinha, mas que se inspira nessa divisão minimalista em tons nudes envidraçada e compatibiliza a nossa descomplicação com boas vindas a amigos, pede música ambiente - gostamos de tudo, mas não de qualquer coisa, já sei - e vinho tinto a aquecer junto à lareira para depois ser servido em copos altos de balão ao petiscarmos de uma tábua de queijos a ver filmes enquanto fazemos o nosso.
A generalidade das pessoas tende a tornar-se desinteressante como rotinas obstinadas ou frases com um só sentido. Mas tu? Sou o homem mais feliz do mundo quando me olhas com esses olhos fundos. É com admirável carinho que vejo esse privilégio, sinto uma comoção que mexe fisicamente comigo e quero que te envolvas com o meu ego orgulhoso que se mostra visivelmente excitado, emocionalmente excitado. Sentir prazer com o teu corpo, transcender-me com os teus ideais. Abres os olhos para mim e eu não resisto a entrar nesses mundos. Confias-te a mim e eu sou um adepto devotado da tua entrega, uma aluna e uma professora, uma querida. "Tu podes ver-me", sussurras-me muitas vezes quando adormeces encostada a mim ou quando passeamos no parque da cidade ou fazemos piqueniques à beira-mar. E como é impagável poder aceder à tua forma de ser estrangeira a este mundo, imigrada para esta realidade vinda sabe-se lá de que céu. Talvez um que se conte entre os muitos que guardas em ti e que me dás a provar aos poucos, sabes a tantos mundos. A tua alma espreita por esses olhos que são vidros como os da nossa sala, não fosse eu ao espreitar dentro de ti encontrar as mais belas, amenas e densas noites estreladas, indo e vindo da lua quantas vezes seguidas bem levado por ti.
Estar contigo é poder viver num mundo melhor. É olhar-te e sentir um amor livre e nunca menos verdadeiro por isso. Pelo contrário, mais vívido ainda, controversamente tal como tudo contigo que é pelo lado e pelo avesso, trazes novos lados às coisas, todos eles tão certos. Olharmo-nos e sentirmo-nos completos. Podermos entrar sem bater à porta, habitares-me com as tuas ideias e eu morar no eu corpo que é como quem diz cuidares dos meus sentidos e eu proteger a tua alma. Olhar-te, tocar-te. Segurar nesse cabelo de princesa. Beijar-te os lábios e trazer-te a alma aos olhos. Beijar-tos tão quentes com carinho e língua. Ter-te próxima e ser-te próximo, conhecer esses teus mundos interiores umas vezes com emoções, outras com sensações. Canto músicas para ti, depois tu tocas para mim - podia tocar eu, mas prefiro quando és tu. Tocas tão bem tantos instrumentos, tanto como a mão como com a boca, não sei até se não os tocarás com os olhos. Tens um carinho notório pela música que fazes, bastava-me ver-te tocar, o mundo podia acabar aqui. Gosto do teu ritmo, estamos em sintonia. Quando a melodia adensa, somos um. A ouvir-te e a viajar contigo nesse vaivém de notas, tantos sustenidos, tantos acordes bem dados, nunca desafinada. Entrar na música é entrar e sair de ti repetidamente, é sentir as tuas paredes estreitas e um universo tão imenso ao passá-las, ir de uma música a outra e conheceres tantas e seres tão boa intérprete, a intensidade no ponto certo, do piano ao mezzo forte e ao fortissimo. Sentir cada nota tocada agora tão rápido e tão acertadamente. Os teus mundos pedem-me para cantar em todos eles, cantas também e desfaço-me com toda essa tua boa aura, tens uma terna voz grave, mas os teus agudos são ótimos. Somos um quando cantamos assim, querida, somos um, fervorosa, calorosa e intermitentemente. De tantas formas, em tantos sítios. É igualmente bom e cada vez melhora. Fechas os olhos porque a alma quer transbordar do teu corpo, como a música eleva os homens. Vou acabar agora, a minha parte favorita, tal como todas as outras, gosto de tudo o que fazemos juntos.
Terminada a música, ainda te agarras mais a mim. Como é bom que fiques. Estás tão feliz, esses mundos criam sinergias e rejubilam em novas ideias. Esses olhos cintilam. Olhar-tos e ver a minha sorte. Deixo que saibam que és minha, mas gosto que sejam secretas as múltiplas formas em que o és, desvendas algumas, mas há mais, há sempre mais contigo. Palavra que não sei de que universo veio essa tua forma de ser que é múltipla em si e se revela numa instabilidade estável, apaixonante forma de vida. Há em ti uma complexidade muito bem resolvida, uma clareza de espírito exemplar que ensinas em palavras e em mimos e eu não podia ser um aluno mais dedicado aos teus ensinamentos. As coisas não são lineares contigo. Gabo a tua postura, a tua versatilidade e essa tua aprendizagem rápida. Tudo em ti é "vamos? vamos." e contigo eu vou e eu venho. És certamente um portal para os sítios mais bonitos que visitei, quantos mais me darás a conhecer, tu que és tantos lugares e tantas culturas, tantos meios e tantos fins.
Acabas a noite a beber livros e a ler cocktails; porque a tua sede é de educação e estudas a o fenómeno da inibição promíscua que o álcool incita. Gostas de desafios e eu sou um que resolves particularmente bem. "Preciso que tenhas os teus defeitos", disseste-me uma vez, afeiçoada aos meus males que usas para fazer bem, e nunca dei tantas graças por ser falível, fazes-me gostar de ter erros. És a melhor razão do mundo para eu ser homem.
Acabas a noite a beber livros e a ler cocktails; porque a tua sede é de educação e estudas a o fenómeno da inibição promíscua que o álcool incita. Gostas de desafios e eu sou um que resolves particularmente bem. "Preciso que tenhas os teus defeitos", disseste-me uma vez, afeiçoada aos meus males que usas para fazer bem, e nunca dei tantas graças por ser falível, fazes-me gostar de ter erros. És a melhor razão do mundo para eu ser homem.