domingo, outubro 18

Direita


Ando nua por debaixo da roupa e tu andas também. Cada qual sabe o que veste e isso a si lhe diz respeito. Não acredito que o Estado conheça os gostos de um indivíduo melhor do que ele próprio; pelo contrário acredito na autorregulação. Não é preciso dar roupa a ninguém para que andemos vestidos. Quem tem casacos a mais que os troque por calças; a quem lhe sobram vestidos que os troque por calções; quem tem lenços a mais que os troque por chapéus, hão de estar baratos porque "chapéus há muitos"; quem encontrou a carapuça certa que a enfie, mas que não se contente com qualquer uma.
Continuo nua, se quiser troco a roupa por água e ando nua, o que me vão fazer? Quem me diz a mim que preciso de roupa? Ou um meio termo, posso sempre trocar roupa a mais por água; ou por água ou por vinho, não estou a falar da ética, a justiça cabe ao campo da justiça e no campo da decisão eu falo de liberdade e poder de escolha. Era um mero exemplo, até porque água bebo pouca, a minha sede é outra - mais rápido trocaria água por educação e visto-me por dentro, tem ficado fora de moda, mas para mim é a roupa mais confortável. Enquanto compro e não compro, vou a uma biblioteca, não preciso de dar nada que não o meu tempo (e registar o meu nome e morada na folha da entrada, mas como me emprestam a caneta, resume-se, de novo, de uma questão de tempo). 
As questões são resolúveis com bom senso e bom gosto. Quem procura em catálogos de moda que não menospreze outros catálogos e ao escolher que selecione o que realmente lhe acrescenta algo, quantas vezes o dar não é tirar, sempre me disse o meu pai que ninguém dá nada a ninguém. Cá, são tudo transferências. A energia não se consome, é transferida; uma parte é útil, outra é dissipada, mas lá vai ela e cá fica ela. Analogamente para a matéria e para os bens materiais: viemos todos nus, andamos todos nus, morremos todos nus; uns nus com coisas por cima, outros nus com coisas por dentro e quantas vezes não estamos nus com coisas que nos passam ao lado.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...