Pousei a mala no balcão do bar. Abri o fecho e busquei um maço de cigarros com a mão. Escolhi um cigarro.
Olha, cigarro, como te pego. Olha como te seguro entre os dedos e como percorro o caminho que fazes até aos meus lábios com os olhos. Olha como não me alongo em te acender assim que te tenho na minha boca e como antes ainda de te acender já toda eu sou labaredas por dentro. Olha só, cigarro, em quantos sítios do meu corpo poderias pousar aceso para alastrar todo este incêndio em que já me vejo. Levo-te repetidamente aos lábios como se a boca fosse sinédoque do meu corpo (posto isto, como é bom que ardas aí). Não te acabes rápido. Olha como te prendo para que não te vás depressa demais e ao mesmo tempo inspiro bastante e já sou eu quem te acelera o ritmo. Olha como fecho os olhos quando te levo à boca e olha quando não os fecho, esse esforço contranatural que despoleta as emoções que explora das minhas falíveis caraterísticas humanas, como a visão, o tato, o olfato e o sabor. E o teu sabor... Olha como o teu sabor ilícito não é passível de ser copiado e debruça-te sobre o mistério de que quando sou eu quem te fuma me delicias e como se sinto antes o teu cheiro da boca de outra me enojas. E olha, olha como te fumo -
Olha, cigarro, como te pego. Olha como te seguro entre os dedos e como percorro o caminho que fazes até aos meus lábios com os olhos. Olha como não me alongo em te acender assim que te tenho na minha boca e como antes ainda de te acender já toda eu sou labaredas por dentro. Olha só, cigarro, em quantos sítios do meu corpo poderias pousar aceso para alastrar todo este incêndio em que já me vejo. Levo-te repetidamente aos lábios como se a boca fosse sinédoque do meu corpo (posto isto, como é bom que ardas aí). Não te acabes rápido. Olha como te prendo para que não te vás depressa demais e ao mesmo tempo inspiro bastante e já sou eu quem te acelera o ritmo. Olha como fecho os olhos quando te levo à boca e olha quando não os fecho, esse esforço contranatural que despoleta as emoções que explora das minhas falíveis caraterísticas humanas, como a visão, o tato, o olfato e o sabor. E o teu sabor... Olha como o teu sabor ilícito não é passível de ser copiado e debruça-te sobre o mistério de que quando sou eu quem te fuma me delicias e como se sinto antes o teu cheiro da boca de outra me enojas. E olha, olha como te fumo -
e olha sobretudo como quem me fuma és tu. Ponho-te na boca, mas ponho-me eu em ti; não acabas na minha mão, sou eu que acabo quando me vejo de mãos vazias e acendo-te para reabilitar estas mãos humanas e lhes dar essa profana sensação de imortalidade que a eminência de mortalidade inusitada incita. Fumo-te. Mas quando te esgotas esgoto-me também; só não morro porque sei que posso fumar outro e enquanto houver cigarros posso viver à espera do próximo. Cada cigarro começa e acaba e eu posso viver de forma sustentável num ritmo aparentemente constante, mas quase intermitente. Vivo enquanto houver mais e não morro antes dos cigarros, pelo contrário: hei-de morrer antes de que todos os cigarros do mundo se esgotem. Comecei este vício e hei-de morrer com ele e os cigarros só querem ser fumados, não importa por quem.