A segunda lei da termodinâmica afirma que os sistemas tendem para uma quantidade de entropia máxima. Eu, do contacto empírico que vou tendo com o mundo, levo-me a crer na hipótese de haver uma correlação positiva entre a alma imaterial humana e o mundo físico, por ver que da mesma forma que com o tempo cadernos e livros de uma sala isolada tendem para a desorganização, o mesmo sucede aos sonhos e os objetivos do homem isolado. Poucas coisas são mais tristes do que um homem que parece uma sala desarrumada.
Mais: acho que a segunda lei da termodinâmica não está bem enunciada e a relação estabelecida avança um passo - a relação não deveria ser sistema-entropia, mas sistema-acaso-entropia, porque numa primeira instância, os sistemas tendem para o acaso e o acontecimento esperado será o obtido quando os cenários possíveis são ponderados pela sua probabilidade de ocorrência. Como a organização de uma sala tem poucos cenários favoráveis comparados a uma multiplicidade de casos possíveis, a probabilidade de o estar será, de facto, bastante ínfima quando comparada com a probabilidade de estar desorganizada, sendo provável que numa sala deixada ao acaso se verifique a desorganização.
Também assim é com os homens. À medida que se dão passos neste mundo e se formam esses pequenos sistemas que somos cada um de nós, todas as nebulosas do que nós somos e do que nós almejamos vão oscilando. Todas as oscilações casuais, todas as variações que não são induzidas por vontade própria, são esses acasos. Ainda há salas moderadamente organizadas, mas muito poucas. Vejo salas de castelos com furos nas juntas das paredes, vejo piscinas sem água, vejo florestas queimadas e por reanimar.
No cemitério jazem mais sonhos e ideias do que os realizados, diz-se. E dos que vivem, quantas vidas não estão já tão irrefletidamente obstinadas que não sejam já salas perdidas dentro de si mesmas, com noção de que têm tudo em si, mas sem saberem onde o encontrar no meio de tanto (que é tão pouco). Cabia sempre mais, mas temos medo de entrar nas salas, porque sabemos como devem estar apertadas. As coisas não se completam, mas acumulam-se. Vão-se deixando ficar. A flexibilidade aparente a mando do desleixo leva a uma estóica inflexibilidade chorosa. Sinto frustração sobre estas salas desiludidas com tão pouco do mundo, sobretudo ao ver que todas têm remédio e como gostava de ser a empregada que as limpava todas e as deixava prontas a receber pessoas. Sei como é fácil ficar desiludido neste mundo. Os rios deixam-se secar. As montanhas ficam por escalar, já não vamos aos Estados Unidos com amigos como tínhamos prometido. O céu mantém-se azul, mas já ninguém sabe ao certo desenhá-lo, de tão habituado a olhar para baixo em vez de para cima. Há pétalas caídas no chão. Das rosas, o mundo já só tem os espinhos.
No cemitério jazem mais sonhos e ideias do que os realizados, diz-se. E dos que vivem, quantas vidas não estão já tão irrefletidamente obstinadas que não sejam já salas perdidas dentro de si mesmas, com noção de que têm tudo em si, mas sem saberem onde o encontrar no meio de tanto (que é tão pouco). Cabia sempre mais, mas temos medo de entrar nas salas, porque sabemos como devem estar apertadas. As coisas não se completam, mas acumulam-se. Vão-se deixando ficar. A flexibilidade aparente a mando do desleixo leva a uma estóica inflexibilidade chorosa. Sinto frustração sobre estas salas desiludidas com tão pouco do mundo, sobretudo ao ver que todas têm remédio e como gostava de ser a empregada que as limpava todas e as deixava prontas a receber pessoas. Sei como é fácil ficar desiludido neste mundo. Os rios deixam-se secar. As montanhas ficam por escalar, já não vamos aos Estados Unidos com amigos como tínhamos prometido. O céu mantém-se azul, mas já ninguém sabe ao certo desenhá-lo, de tão habituado a olhar para baixo em vez de para cima. Há pétalas caídas no chão. Das rosas, o mundo já só tem os espinhos.