Para a Isabel e para todas pessoas que têm namorados desnivelados.
(Este texto é tipo aquela estrofe entre parêntesis que começa com "Na nora do meu quintal, O burro anda à roda, anda à roda,", numa Ode de Álvaro de Campos, parece muito diferente, parece que não tem nada a ver, mas tudo se interliga e tem a ver sim senhor e tal como o poema não estaria completo sem essa parte, também este blog... Se a História serve para (i) analisar o percurso até à situação atual e daí se compreender o presente e (ii) tirar ilações sobre métodos de resolução e prevenção de problemas, também ao próprio Homem se pode aplicar essa cadeira - não ipsis verbis, mas com certas semelhanças.).
Pensei mais ou menos isto:
Entretanto o ex da Isabel tem outra namorada. Nada de especial, mais ao nível dele. É bonitinha, não tem lábios carnudos, mas também não sabe falar de grande coisa, ninguém lhe olha para a boca. Tem uns olhos bonitos, pena que os revire tanto. Adora arranjar confusões e meter-se nelas, gosta muito de dar trabalho, dá mais trabalho do que o que vale. Uma miúda. Podia andar num infantário que era muito feliz, adorava andar de baloiço em vez de andar a estudar coisas que não tem capacidade para aprender. É burrinha, está bem para ele, para um miúdo uma miúda, assim ele não se sente mal por não saber falar de nada. Não sabe nada de política - "que bom, posso mandar nela"; por acaso não pode muito, ele não tem mão em ninguém, tem muito que crescer, ou não, com esta namorada, pode continuar sempre assim, só se gasta uma casa. Ela bebe muito, depois não diz nada, mas também não diz nada sóbria, pelo menos nada de jeito. Não sabe o significado de oscular, supérfluo e incólume, mas também não precisa, nunca as poderia usar com ele, ele sabe lá o que é o domínio da língua portuguesa, a única língua que ele sabe dominar é a anatómica. Vê a casa dos segredos, ri-se como louca (mas como só pode ser louco quem pensa, dessa sina está salva); não entrava na casa, não tem segredos, sabe-se logo tudo ali. Olha-se para ela e está vista. Nada por dentro. É inócua, não há muito que se possa prescutar nela, porque ela não tem nada. Claro que é efémera a beleza exterior, mas ele sempre foi muito lento, nestas alturas dá jeito. Ela é o que é, dá uma gracinha olhar para ela, tem sempre um sorrisinho na cara, sim, ela pode ir no teu carro, sim, podes conduzir bêbado com ela, sim, ela mora nesse prédio, sim, podes subir e dormir com ela, até podes não dormir. Veni, vidi, vici - não é grande taça, mas sempre é um diploma bonitinho.
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A Isabel encontraria um melhor. Não vai apagar as fotografias dele, não que goste dele, mas não precisa. Vai encontrar um namorado que a oiça a dizer como ele a fez crescer muito e que não lhe vai dizer para não falar mais com ele, mas dar-lhe liberdade, porque as pessoas inteligentes lidam muito bem com o conceito de liberdade.
A Isabel mudou muito, por acaso, (nada é por acaso naquilo que escrevo). É bonitinha, numa beleza verdadeiramente interessante. Sabe ser. É uma pessoa que sabe. Pode-se falar com ela de qualquer coisa, ela acompanha sempre. Foi um movimento de Pareto. "Por que é que acabaste com ele, Isabel?". Ele é que estava a acabar com ela ao a esgotar física e psicologicamente, aquele namoro era uma tortura e o pior é que nenhum dos dois sabia. Ela já não gostava dele, mas como se pode censurar? Alguém com conteúdo não se consegue encantar muito tempo por alguém todo ele vácuo.
O pior foi achar que a culpa era sua: tinha que fazer com que ele gostasse dela o suficiente, o suficiente para ela. Porque ele achava-a muito bonita, sim senhor, tem um corpo à medida do dele, que bela anca, agora até falava mais com os amigos dele, andavam juntos de barco, ele tentou ensiná-la a conduzir, ia ter com ele de madrugada, ela saía pela janela à noite, era tudo muito bonito - para ele. (Se fosse um gráfico do encontro das curvas da oferta e da procura, neste caso a oferta era bastante limitada e ela, curva da procura, adaptava-se à necessidade de um ponto de equilíbrio cada vez menos próximo do que seria natural para ela - estava a suportar um imposto.) Era cega como uma mulher que sofre violência doméstica, mulheres incríveis com maus namorados acham sempre que não valem nada.
E é por isso que a namorada nova dele nem lhe faz perguntas sobre ela. Porque ele acabou com ela, mas se ela lhe perguntasse "Por que acabaste com a Isabel?", ele ia dizer que foi por ela ser inteligente, por ela ser a mais carinhosa das raparigas que ele conheceu a vida inteira, por ela arranjar sempre tempo para ele enquanto ele estava a jogar computador, por ela querer viajar muito com ele e com os amigos dele (com os amigos dela nem por isso. eles nunca gostaram muito dele). "Por que ela era boa de mais para ele?". Sim, essa desculpa não é para as massas, é para os intelectuais. E se a Isabel só é feliz com mais, os miúdos (só) são felizes com menos. É só engraçado ver como por um lado há quem seja mais feliz com um oceano do que com um copo de água da torneira, mas também há o inverso, quem esteja melhor com uma espinha do que com um peixe ou com uma laranja do que com um pomar.
E bate aí fundo o mistério dos corações enamorados, o vermos que talvez não seja tão ridículo namorarmos com a mal humorada sem conteúdo se também formos assim e que realmente temos de tomar posições na vida, definirmos objetivos e pensarmos "quem sou?" e "o que quero?", para não convidarmos uma mansão para namorar connosco se formos apenas um t0 sem mobília ou aceitarmos namorar com um uma viagem para a cave degradada e enferrujada do vizinho do lado se formos uma quinzena de férias com tudo incluído numa praia paradisíaca nas Maldivas - são ambas más decisões.