segunda-feira, dezembro 29

(Nunca) Desenhar corações em pinturas tristes

Nenhuma pintura fria permanece inalteravelmente fria se nela estiver um coração. Todas as pinturas tristes permanecem assim enquanto não se pensar num coração e pensar nele é quebrar a frieza da pintura. Se queres fazer uma pintura triste, faz linhas, faz rodinhas, faz um polícia a fazer o pino, faz um rapaz que esteja com pouca roupa e chore porque não saiba andar de bicicleta, mas não faças nunca um coração. Nem que esteja quebrado, porque nos dias de hoje todos sabemos que já se inventou cola e poder montar corações é uma alegria quase tão grande como vê-los inteiros.

Pode ser uma pintura triste, de cores frias, de uma rua agora desabitada, com casas que se deixam cair pelo caminho depois de abaladas por um tufão; se o tufão for em forma de coração, a pintura não é lida como as vidas que foram, mas como as que podem vir, quem sabe se o tufão não é uma metáfora para o que há dentro do que é humano e altera todas as nossas rotinas a que chamamos lar e talvez abandonar o conforto depois dessa tempestade de mudanças seja estar num lugar garantidamente melhor, porque olhar para trás é ver destroços.

Pode ser uma pintura corrida a sangue, negra à volta de um rio de sangue onde se vêm lanças espalhadas no chão que se supõe que seriam dos homens que já lá não estão. Se as pontas metálicas dessas lanças forem em formatos de corações remeterão para o amor à nação dos que lutaram ou em como a arma mais forte deles era o amor ou em como eles foram, mas os corações com que lutaram fica.

A pintura que seja sobre a morte. A pintura que seja sobre a doença e a pobreza. Se houver um coração, a pintura deixa de ser fria. Pelo menos, deixa garantidamente de ser só fria. O coração guia para a vida, traz a saúde e abre caminho para a clareza de espírito. Onde há amor os males são males menores. Onde houver um coração, há esperança e há aquele sorriso tímido no canto do lábio. Há espaço para tristeza e esperança na mesma pintura, arrisco-me a dizer. Cabem ódio e paixão no mesmo quadro. Tantas coisas pode acrescentar um coração - e que coisas tão gloriosamente boas.
Faça uma pintura triste. Se a quiser triste, não lhe toque; se não a quiser triste, faça-lhe um coração. Um grande ao centro ou um pequenino no canto. Faça-lhe as pupilas dilatadas em forma de coração ou ondas que se encontram e se desencontram no oceano vago como pequenos corações. Pôr um coração é sempre curar a pintura. É poder interpretá-la de várias formas e transpô-la para um plano novo, garantidamente fora da zona das pinturas sem esperança. Ponha um coração numa pintura triste e nunca mais poderá dizer que essa pintura é triste.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...