É tudo tão bravo nas tuas palavras, gosto delas mesmo por limar, gosto de as ouvir vezes sem conta, sabes escolher as palavras, mesmo quando não as escolhes. Tens as melhores palavras do universo, as tuas palavras são a chave do universo e eu posso passar a vida toda a abri-lo. É difícil, é mesmo difícil, mas ao mesmo tempo é tão fácil. As tuas palavras são água e a água de hoje é a mesma desde o princípio dos tempos, há o ciclo da água, tu sabes, mas eu dependo da água que é de agora e dependo das tuas palavras que são tuas.
Apostaria que as tuas palavras são conjuntos de átomos e acho que reagem quimicamente com os meus pensamentos. Não sei se é fusão ou fissão, mas acho que há mesmo uma pequena explosão e dessa explosão não resulta uma resposta absoluta, mas relativa - novas palavras. É um processo infinito e isso não me assusta, mas sossega-me. Não te cales. Todas as palavras que disseste já me bastam, uma única palavra tua é suficiente para alimentar a minha vida se ela tivesse de a isso se limitar, tal como uma árvore é suficiente a quem lhe bastar uma árvore. Mas tu és a Amazónia das palavras e eu quero explorar-te toda, porque vejo todas as tuas árvores ao mesmo tempo nas tuas palavras e sinto flores a brotar da terra e cascatas que caem ao longe.
Se a vida se vive a morrer, então que eu viva a morrer explorar-te, Natureza Aparte. E que no final a chave do universo não seja uma resposta, mas a multiplicidade de perguntas que atingi no meu último milésimo de segundo de vida. E que essa infinidade de perguntas só tu sejas a resposta, porque a tua natureza é uma pergunta e as tuas palavras são mistérios.