Nascemos todos com o mundo nas mãos. Uma espécie de omnipresença de um só mundo disperso nas mãos dos indivíduos. Com o tempo, contudo, descobrimos que o mundo vai sendo mais de um do que de outros. Queremos todos ter o mundo, ter o mundo é que é doce. "Somos espertos", pensa a maioria e ri-se em silêncio para dentro e num olhar malicioso para fora. Eu, como outros dessa maioria, fechei as mãos, claro, não fosse o mundo sair delas. Fecham-se as mãos com medo de que me roubassem o mundo, com medo de que ele caísse, com medo de que o mundo se transformasse em algo bizarro. Fecham-se com medo. Não voltei a abri-las. Ai não voltei não, nem pensar, pensei eu e ri-me. Não voltei a olhar para o mundo. Não voltei a dar nada ao meu mundo. Nada de novo. Não posso abrir as mãos e acrescentar-lhe coisas, claro, querias, batatas com enguias. Abrir as mãos é ser burro, os outros querem que eu abra as mãos e que perca, querem mais do mundo, pois que o façam eles.
Eu tenho medo de que quando abrir as mãos ele me escape por entre os dedos, tenho medo de que o que arrisque acrescentar ao mundo o estrague, tenho medo de que a mudança seja para pior. Não acrescento nada ao mundo, porque tenho medo. Tenho o mundo nas minhas mãos e não quero deixar de o ter e paradoxalmente nada me tira mais o mundo do que mantê-lo aqui.
É, quando olho para os que abrem as mãos vejo senhores do mundo. Quando olho para mim, vejo alguém que já não sabe se há um mundo. O meu mundo? Já não o vejo. Tinha-o tão guardadinho. Tenho as mãos cerradas, quando as cerrei tinha-o. Agora nada me garante que ele lá esteja. Mais triste ainda: pior do que ele não estar nas minhas mãos é se ele estiver, porque se estiver, está abafado e vazio de que serve ter um mundo abafado e vazio? De que serve ter um mundo estagnado? De que serve ter o mundo nas mãos quando elas não fazem nada por ele?
Ter o mundo escondido e desprovido de esforço é ter uma fortuna e deixá-la debaixo do colchão e morrer a vida inteira a decidir o que fazer com o dinheiro; é ser Tolstoy e não escrever nada, por ter medo de começar com a palavra errada; é ser o único cirurgião disponível e não cuidar do doente aberto, temendo fazer-lhe mal. O mundo depende dos audazes. Ter ou não ter o mundo nas mãos é irrelevante quando se tem medo. As mãos querem-se abertas, é no abrir das mãos que o mundo se guarda. As mãos que querem manter o mundo perdem-no, ele não está nos que têm as mãos fechadas - se eles as abrirem vão descobrir isso. Eles que o façam. "Não quero abrir, imagina se já não estiver nas minhas...", penso. Nesse caso ainda bem que as abri. Abrir as mãos e vê-las vazias requer coragem e a coragem é o primeiro passo para ter o mundo. Muito mais depressa o mundo é dos que abrem as mãos vazias, do que daqueles que iludidos as mantêm cerradas.
Eu tenho medo de que quando abrir as mãos ele me escape por entre os dedos, tenho medo de que o que arrisque acrescentar ao mundo o estrague, tenho medo de que a mudança seja para pior. Não acrescento nada ao mundo, porque tenho medo. Tenho o mundo nas minhas mãos e não quero deixar de o ter e paradoxalmente nada me tira mais o mundo do que mantê-lo aqui.
É, quando olho para os que abrem as mãos vejo senhores do mundo. Quando olho para mim, vejo alguém que já não sabe se há um mundo. O meu mundo? Já não o vejo. Tinha-o tão guardadinho. Tenho as mãos cerradas, quando as cerrei tinha-o. Agora nada me garante que ele lá esteja. Mais triste ainda: pior do que ele não estar nas minhas mãos é se ele estiver, porque se estiver, está abafado e vazio de que serve ter um mundo abafado e vazio? De que serve ter um mundo estagnado? De que serve ter o mundo nas mãos quando elas não fazem nada por ele?
Ter o mundo escondido e desprovido de esforço é ter uma fortuna e deixá-la debaixo do colchão e morrer a vida inteira a decidir o que fazer com o dinheiro; é ser Tolstoy e não escrever nada, por ter medo de começar com a palavra errada; é ser o único cirurgião disponível e não cuidar do doente aberto, temendo fazer-lhe mal. O mundo depende dos audazes. Ter ou não ter o mundo nas mãos é irrelevante quando se tem medo. As mãos querem-se abertas, é no abrir das mãos que o mundo se guarda. As mãos que querem manter o mundo perdem-no, ele não está nos que têm as mãos fechadas - se eles as abrirem vão descobrir isso. Eles que o façam. "Não quero abrir, imagina se já não estiver nas minhas...", penso. Nesse caso ainda bem que as abri. Abrir as mãos e vê-las vazias requer coragem e a coragem é o primeiro passo para ter o mundo. Muito mais depressa o mundo é dos que abrem as mãos vazias, do que daqueles que iludidos as mantêm cerradas.