sexta-feira, novembro 21

O mundo está nas mãos dos que têm as mãos abertas

Nascemos todos com o mundo nas mãos. Uma espécie de omnipresença de um só mundo disperso nas mãos dos indivíduos. Com o tempo, contudo, descobrimos que o mundo vai sendo mais de um do que de outros. Queremos todos ter o mundo, ter o mundo é que é doce. "Somos espertos", pensa a maioria e ri-se em silêncio para dentro e num olhar malicioso para fora. Eu, como outros dessa maioria, fechei as mãos, claro, não fosse o mundo sair delas. Fecham-se as mãos com medo de que me roubassem o mundo, com medo de que ele caísse, com medo de que o mundo se transformasse em algo bizarro. Fecham-se com medo. Não voltei a abri-las. Ai não voltei não, nem pensar, pensei eu e ri-me. Não voltei a olhar para o mundo. Não voltei a dar nada ao meu mundo. Nada de novo. Não posso abrir as mãos e acrescentar-lhe coisas, claro, querias, batatas com enguias. Abrir as mãos é ser burro, os outros querem que eu abra as mãos e que perca, querem mais do mundo, pois que o façam eles.

Eu tenho medo de que quando abrir as mãos ele me escape por entre os dedos, tenho medo de que o que arrisque acrescentar ao mundo o estrague, tenho medo de que a mudança seja para pior. Não acrescento nada ao mundo, porque tenho medo. Tenho o mundo nas minhas mãos e não quero deixar de o ter e paradoxalmente nada me tira mais o mundo do que mantê-lo aqui.

É, quando olho para os que abrem as mãos vejo senhores do mundo. Quando olho para mim, vejo alguém que já não sabe se há um mundo. O meu mundo? Já não o vejo. Tinha-o tão guardadinho. Tenho as mãos cerradas, quando as cerrei tinha-o. Agora nada me garante que ele lá esteja. Mais triste ainda: pior do que ele não estar nas minhas mãos é se ele estiver, porque se estiver, está abafado e vazio de que serve ter um mundo abafado e vazio? De que serve ter um mundo estagnado? De que serve ter o mundo nas mãos quando elas não fazem nada por ele?

Ter o mundo escondido e desprovido de esforço é ter uma fortuna e deixá-la debaixo do colchão e morrer a vida inteira a decidir o que fazer com o dinheiro; é ser Tolstoy e não escrever nada, por ter medo de começar com a palavra errada; é ser o único cirurgião disponível e não cuidar do doente aberto, temendo fazer-lhe mal. O mundo depende dos audazes. Ter ou não ter o mundo nas mãos é irrelevante quando se tem medo. As mãos querem-se abertas, é no abrir das mãos que o mundo se guarda. As mãos que querem manter o mundo perdem-no, ele não está nos que têm as mãos fechadas - se eles as abrirem vão descobrir isso. Eles que o façam. "Não quero abrir, imagina se já não estiver nas minhas...", penso. Nesse caso ainda bem que as abri. Abrir as mãos e vê-las vazias requer coragem e a coragem é o primeiro passo para ter o mundo. Muito mais depressa o mundo é dos que abrem as mãos vazias, do que daqueles que iludidos as mantêm cerradas.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...