segunda-feira, novembro 17

Uma cabeça cheia de ninhos vazios


A tua cabeça tem ninhos. Tem tem. E que ninhos. A tua cabeça está cheia deles. Palha, muita palha, disposta engenhosamente, a tua cabeça é um porto seguro, podem confiar-te tudo, tens uma boa cabeça, está pronta para receber e guardar sem estragar. Que ninhos bem feitos. Bom trabalho. Belos ninhos. É pena é que pássaros nem vê-los. Nem um. Nem um ovo. Não há sinais de vida, só ninhos, os melhores ninhos do mundo, os ninhos mais bem preparados para os pássaros e os pássaros longe destes. Tens ninhos por todo o corpo. És uma caixa de ninhos. Podias ser uma guardiã de pássaros, uma criadora dos que voam, mas não és. E não é que não estejas preparada nem que não tenhas capacidade, tens é medo e nos ninhos onde há medo não há pássaros. Os pássaros não têm medo, é absurdo que covardes tenham pássaros. 

Os teus ninhos são perfeitos demais. Vê-se que passaste muito tempo com eles - tempo a mais. Já é tarde para teres pássaros. Estavas a olhar para os ninhos em vez de quereres chamar pássaros. Tens os ninhos, mas não os pássaros e de que servem os ninhos sem os pássaros? Tinha de estar tudo perfeito para quando eles viessem e nem te lembraste de que eles podiam não vir. Não dá vontade de chorar por não teres pássaros, dá vontade de rir. Tens os ninhos mais bonitos de toda a gama de ninhos. Se esses ninhos fossem metaforicamente uma mulher, ela seria dotada de um corpo trabalhado por obra divina, miss mundo, os trolhas assobiam quando passa, mas ninguém consegue conversar com a senhora inacessível. Que ninhos incríveis. Tens ninhos que podiam vir em catálogos, não são ninhos, são mansões, são senhores ninhos. E é ridículo que sejam ninhos vazios. Era como se um chef preparasse o melhor manjar e não o fizesse a tempo de ser provado. Era como se uma professora preparasse a aula e só fosse capaz de a apresentar quando os alunos tivessem morrido. 

O esplendor dos teus ninhos é o teu maior sinal de fracasso. Quem olha não vê ninhos: vê sítios onde faltam pássaros. São casas onde não há quem queira aprender a voar. São casas onde não há vida. E em ti também já há pouca vida. Que pena. Hás de morrer com ninhos vazios. Hás de morrer com grandes ninhos feitos para terem algo, mas nada. Tudo o que têm é a frustração de uma vida que passou ao lado. Os pássaros andam à volta desses ninhos, mas aí dentro não. Nem pensam nisso. Andam nos corpos das tuas amigas, passam por cima dos teus ninhos, passam por baixo deles, mas estão sempre de passagem, vão ao encontro dos ninhos deles. Os teus ninhos não são deles. Os teus ninhos não são de ninguém. Ninhos inúteis. Quem te vir vai comentar como é pena que nunca alguém tenha feito render tão belos ninhos. Talvez tos peguem depois de ida e digam "foi ela que fez estes ninhos" ou talvez tos enterrem contigo, caixa de ninhos. Toda tu és um ninho. Olho para a tua cara de natureza insípida e não vejo arte nos ninhos trabalhados. Só palha colada, sem qualquer sombra de vida alheia, sem contribuir para criar pássaros, tudo perfeito demais para que haja vida lá dentro.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...