terça-feira, setembro 30

A história da carrinha velha que não é sobre a carrinha velha

O Marcos tem uma carrinha. Tinha, foi assaltado. Não foi atrás dela, era velha, os ladrões já deviam estar a desmontá-la para vender peças ou a tinham entregado à sucata. Os ladrões são finos e o Marcos fez-se de burro, tal como se faz sempre de duro. Ele queria castigar os ladrões, "eu sou-te sincero, eu até sei fazer bombas". Que bom, Marcos, faz uma para a tua cozinha e rebenta com ela, seu "diz que faz tudo, mas não faz nada". A mulher dele, pegou logo na colher de pau e saiu de casa com a força toda. "Não lhes quero bater, quero assustá-los", porque no fundo ela até gostava de ver os ladrões, não gosta do que eles fazem, mas vê-los como miúdos perdidos, de ideias viradas do avesso, a pedir que alguém as olhe e as oriente: os ladrões são miúdos de ideias mal passadas a ferro que precisam de uma mulher que veja a beleza das suas ideias encorrilhadas e que tenha o carinho e a paciência para as deixar como novas.

E enquanto que o Marcos, o bombista, deu o caso como perdido e perdeu a carrinha, a esposa procurou incansavelmente a carrinha pelas ruas da cidade. Não importa para a história se a encontrou ou não - até porque ela não a encontrou e hoje é feio contar histórias motivadoras com finais aparentemente tristes, mas isso já seria outro conto -, o que importa é que ela queria mesmo fazer a diferença. E podia. E ela não sabia, mas até podia ir sem colher de pau e o que ela fazia já nem era pela carrinha velha, já nem era por ela: era pelos ladrões.

Ela era o oposto de uma cadeia, era a metáfora do espaço físico num lugar psicológico onde os ladrões podiam ser livres. Eles não eram calados, mas entendidos e em vez de castigados eram ajudados. E nunca mais voltavam a roubar: aliás, depois de falarem com ela, eles só queriam dar o que tinham.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...