Que este texto seja um beijinho e um abraço a todas as ótimas pessoas que não sabem o que fazer com pequeninas manchas na alma.
Esfregava, esfregava, esfregava. Tinha um pano húmido à volta daqueles pelos ásperos da vassoura e empurrava-o violentamente contra a passadeira, ora para a frente, ora para trás. Tinha contornos bordô, um outro padrão desenhados no centro, mas todo o fundo - o seu background, digamos assim - deveria ser amarelo, de um amarelo torrado. Amarelo como o sol, como a luz, como o esplendor; torrado como a discrição, a sensatez, o dom de ser ameno. Tinha um destaque bom, o destaque que todos aqueles que ambicionam destaque almejam ter; e tinha-o por dádiva, naturalmente, era um dom.
Era. Já não é, pensa a mulher esfregadora, sempre a esfregar a carpete, incansável nesse esfreganço indefinidamente prolongado, binariamente ritmado, persistentemente dançado. A carpete estava manchada. Não muito, mas o suficiente para que, naquela área, não fosse amarela, mas castanha. Um castanho escuro, um castanho feio, um castanho podre.
Estava, ali, naquele círculo imperfeito, uma mancha que apesar de pequena e limitada punha em causa toda a carpete. Uma mancha pequena, pequenina, talvez muitos não reparassem, mas os que reparassem ampliá-la-iam, tal como ela que repudiava a carpete, pela mancha.
Já não há detergente que a salve. Já não há pano que limpe. Já não há força que esfregue a mancha da li: ela veio para ficar. "Se ao menos pudesse voltar atrás e não tivesse deixado que o caldo entornasse (na carpete)...", pensava a mulher. O que iriam dizer as amigas quando ela as convidasse e elas vissem aquela carpete? Pior: o que pensariam elas e, cinicamente, calariam? "Que vergonha, que miséria de carpete, não me dou com alguém que tenha uma mancha assim, vão achar que também tenho manchas como tu tens", pensou ela pelas amigas. Ricas amigas. Nem tentam lavar a carpete, nem dão força ao que de nela há bom.
"Só se eu descosesse esse pedaço e colasse outros por cima", pensou, em desespero, a mulher da vassoura com pano na ponta. Que ridículo, tapar buracos, ao que o desespero leva o Homem...
Deixa a puta da mancha aí! Foi uma marca do passado, foi uma lição de vida. A carpete é mais do que a mancha, mas é a mancha também. Mais: a carpete é o que fez da mancha. A carpete é má se a mancha a apodrecer toda; mas a carpete é boa se deixar que a tua filha pequenina, mulher, desenhe pétalas em torno da mancha e faça da mancha o centro da flor e isso torná-la-á ainda mais especial do que qualquer carpete simples que facilmente perderia o interesse.
Ela que desenhe um girassol e que ele se oriente pelo bem e que a mancha se vire para esse bem também. Que não cresçam as manchas, mas que cresça a carpete com elas, muitas ou poucas, que de todas elas brotem flores. E as tuas amigas que vejam que a carpete não se resume ao que já foi, mas ao que será. E se elas não virem a flor, mas só virem a mancha, não lhes chames amigas, mas inimigas. E se elas precisarem de ajuda, ajuda-as na mesma - não queiras tu ter manchas em ti, ou talvez queiras, desde que faças flores com elas, no que depender de mim, vou sempre ver-te como um jardim.