Qualquer dia demito-me. O patrão pede cada vez mais horas de trabalho, sempre a doer, "Chico, já fizeste isto?", "Chico, faz mais aquilo.", "Chico, depois acaba o resto.", "Chico," e continua com mais indicações. Às vezes pergunta "Chico, importas-te de ficar até mais tarde?" e parece educado, mas eu não posso dizer que me importo, porque se me importar põe-me porta fora... Era um favor que me fazia, penso eu. Também, ou me põe ele, ou me ponho eu, porque eu
Qualquer dia demito-me. Estou farto de chegar a casa com a minha mulher a dormir e de sair de casa com ela a dormir. Já mal me lembro de a ver com os olhos abertos, só aos domingos, quando vamos jantar a casa dos pais dela e aí mal vejo os olhos dela, porque tenho os meus fechados de tanto trabalhar a semana toda. Tem uns olhos lindos, verdes, grandes. Ou pelo menos tinha da última vez que os vi. E os miúdos, devem estar tão grandes, quem me dera ajudá-los a crescer, eles têm crescido sozinhos... Tenho de deixar este trabalho deplorável,
Qualquer dia demito-me. Diziam que eu era o "Chico" esperto. Hoje aproveitam-se dos espertos, os espertos não são espertos o bastante para os poderosos, têm na mão quem precisa de dinheiro - mesmo que seja pouco. Pagam-me mal. Fico sujo o dia todo, ando debaixo dos carros, ando em cima deles, só não ando é dentro de nenhum, vou a pé para a oficina, não tenho dinheiro para comprar um carro. O patrão anda com o cachimbo atrás de mim, a mandar fazer, a reclamar do que está feito e do que ainda não está feito e do que não é preciso fazer, mas ele manda fazer, porque ainda não lhe apetece ir para casa estar sozinho, que a mulher deixou-o por ele ser mau marido. Um dia quem o deixa sou eu,
Qualquer dia demito-me. Como é que vim parar aqui? Antes era bom, eu sempre quis ser mecânico, conhecer as pessoas da freguesia... Mas isto foi crescendo, o negócio ia bem, eu fui ficando mais tempo... "Não te preocupes se tiveres de trabalhar até mais tarde, é bom sinal, antes muito trabalho que pouco", dizia a mulher da minha vida - será que ainda sou o homem da dela? - e eu fui-me deixando andar. Não sei como vim parar aqui, não tive tempo para pensar. Mais uma hora na oficina, menos uma em casa, muitas horas na oficina, muito poucas em casa. Isto tem de parar,
Qualquer dia demito-me. Esta vida é de cão, de um cão abandonado, ou pior, de um cão que abandona. Um cão que abandona os bons donos, para andar na rua por eles. Que vida de cão que levo, desculpem-me estar tão ausente, devo estar com um ar velho, cheio de carraças sociais, com comichões e vícios rafeiros. Amo-vos e tenho saudades vossas e estou tão perto, esta vida é triste.
Enfim, já falei que baste. Podia continuar, mas vou deitar-me. Já é tarde e amanhã tenho de ir trabalhar.