O marido dela morreu. Já não é casada, agora é viúva. Já não faz o jantar para dois, já não vai de mão dada à igreja, já não diz aos netos para levantarem o avô do sofá, já não tem de ouvir o relato de futebol enquanto pedia para mudar para a novela. Já nada.
Dos dois a que que se pode vestir veste preto. O outro no preto está, no obscuro e indefinido desconhecido que tanto se procura conhecer pela oração, esse lado que ela procura trazer para o lado dela quando reza o terço e beija o anel que o marido lhe ofereceu nas bodas de ouro; esta, não estando lá onde ele está - e torturando-se por não o estar - busca omitir-se nessa escuridão com que se cobre. Esconde-se da sociedade, é o oposto de um parasita, um desparasita, subentenda-se, que cria o cenário de distanciamento físico mais intenso concebido para que ocorra um estado psicológico que, implicitamente, a leve a crer que estando mais longe do dito mundo, está mais perto do marido.
Veste-se de preto, então. Pega no preto mais carregado que tem no armário e veste-o por fora e por dentro. Ela e negro à volta, esteja o leitor a vê-la de qualquer ponto, já nada a toca que não seja preto. Tem tempo para tudo, infelizmente, ela não queria ter tempo para nada., a mulher não quer nada, que querer é ter força e tudo nela é moleza. Lava a roupa preta no tanque como quem lava a alma sem remédio e depois deixa-a a secar no estendal, sentada numa cadeira insípida de plástico deixada amolecida pelo tempo, junto ao quintal que já não rega, se morrer morreu, ela não conta ter de cozinhar por muito mais tempo. E fica ali, sentada, à espera que seque.
Depois tira a roupa e leva-a na bacia. Nada passa na bacia sem que seja preto, tudo preto, sempre. Vai de bacia cheia de preto para cima, levar a roupa para o quarto. Anda devagar, carrega pesos enormes, a bacia e a alma e a bacia é de longe a mais leve das duas. Não chora, tudo secou, as emoções não são emoções, são o elástico que depois de tanto esticado quebra: ultrapassou-se o limite de resistência. Ela não está para ninguém, nem para si. Está mais para lá do que para cá e ninguém é piedoso para a levar.
Veste-se de preto, então. Pega no preto mais carregado que tem no armário e veste-o por fora e por dentro. Ela e negro à volta, esteja o leitor a vê-la de qualquer ponto, já nada a toca que não seja preto. Tem tempo para tudo, infelizmente, ela não queria ter tempo para nada., a mulher não quer nada, que querer é ter força e tudo nela é moleza. Lava a roupa preta no tanque como quem lava a alma sem remédio e depois deixa-a a secar no estendal, sentada numa cadeira insípida de plástico deixada amolecida pelo tempo, junto ao quintal que já não rega, se morrer morreu, ela não conta ter de cozinhar por muito mais tempo. E fica ali, sentada, à espera que seque.
Depois tira a roupa e leva-a na bacia. Nada passa na bacia sem que seja preto, tudo preto, sempre. Vai de bacia cheia de preto para cima, levar a roupa para o quarto. Anda devagar, carrega pesos enormes, a bacia e a alma e a bacia é de longe a mais leve das duas. Não chora, tudo secou, as emoções não são emoções, são o elástico que depois de tanto esticado quebra: ultrapassou-se o limite de resistência. Ela não está para ninguém, nem para si. Está mais para lá do que para cá e ninguém é piedoso para a levar.
Ela não vive, só espera e espera a desesperar. Vive num religioso e temoroso deixa andar. É o extremo. Se tivesse espaço para ter ambições, ambicionaria nada ser, é alguém que claramente ficou cá por engano. Não olha ninguém nos olhos, ela não quer ver - até quer é não ver. O olhar vago dela parece andar a apalpar os cantos das ruas, já sem esperança, mas sem mais nada que fazer senão morrer a tentar um refúgio num abrigo triste. Esborda-lhe saudade pelo olhar distante que não vê nada que esteja perto e tenta num desespero insano alcançar o longe onde acredita que esteja o seu morto marido. Sente uma falta, uma ausência intensa e mais intensamente sente a necessidade de a colmatar.
Então continua a comprar roupa preta, quanto mais preta melhor, toda ela coberta de preto, preto por fora, preto por dentro, quem lhe dera que o preto a engolisse. O marido dela morreu e não foi o único, morreram dois naquela hora e a morte da que sobreviveu é a que mais dói.