[acedo à realidade? sim. por onde? pelo pensamento? a realidade seria toda mera imagem, mera racionalização daquilo que realmente ela é, mero retrato que eu fizesse do que as coisas realmente são. então, só pela experiência? mas como posso eu experimentar a realidade? nunca poderei concluir nada acerca dela? iludir-me-ei. ou tudo é falível ou complico o que é simples - e falível torno-me eu ao me enrolar nestes absurdos que exacerbam o extremo do desnecessário.]
Há sempre um abismo quase intransponível em todas coisas que fazemos. De tudo pode surgir um problema - daí o ênfase que o ser humano dá à falibilidade; daí o orgulho (frequentemente) inútil e mal empregue dado ao seu ego; daí todos os entraves que o nosso eu-psicológico nos coloca. Quero desprender-me disto quando me apercebo - mas temo querer deixar de ser humana (eu?... eu ou o meu ego guloso?). Aceito, contudo, continuar a tentar ultrapassar os problemas. Por um lado, porque me desprendo; por outro - porque, por medo, o primeiro lado não chega -, porque perdoar é humano e as emoções levam ao estabelecimento de relações. (Perdoar é humano? É naturalmente humano? Ou foi algo que criamos para nos distinguirmos dos animais é surgiu como única alternativa para a coexistência de consciência limpa e de erro?) Sim, quero ultrapassar os abismos, nem que volte a cair. E vou continuar a amar e a entregar-me, mesmo consciente de toda a falibilidade que isso implica. Não se preocupem, não estou burra: estou ousada.