As coisas eram o que eram e não podiam ser mais senão o que foram - pedisse ela mais e era obcecada.
Mas pronto, era humana e dava sentido às coisas - sim, era ela quem lhes dava sentido mesmo; fez das coisas escravas do sentido que lhes dava e as coisas já não eram as coisas que eram, mas um sentido que era seu e não delas e foram sendo sempre o que ela lhes chamava, não foram nenhuma outra coisa que não isso.
Eram o que achava que eram. Se ela as achava geometricamente iguais, para si eram iguais, nem que nem das mesmas se tratassem. Se ela achava que mudavam e que não chegavam e que não valiam a pena porque tinham mudado, para si elas mudavam (mesmo que continuassem exatamente iguais). Incutiu devir nas coisas. E via-as e tomava-as e julgava-as. E dizia que eram (mesmo quando não eram).
Quando somos, leitores, somos para algo - e as coisas eram para ela. Até que um dia as deixou. Desprendeu-se das coisas. Era só ela e o resto, sem coisas no meio. Mas houve um dia depois desse dia, em que chegou o medo. Nunca tinha sentido aquilo. Bloqueou-a, fez-lhe sentir que o que tinha não chegava. Precisava de avançar, mas avançar como, se só se tinha a si e estava entravada? Precisava de algo: precisava das coisas. E esse absurdo - o tal medo - fez com que imediatamente urgisse em si a necessidade de recuperar o passado, de se agarrar a ele, como se fosse o melhor que poderia escolher para o futuro (como se fosse tudo o que tinha, como se o tivesse). É isso que o medo faz em nós, joga com o que sentimos e o que queremos sentir e é o desnivelamento, o balanço, a diferença - o que falta para o que queremos sentir - que nos abala, que nos assusta.
A si não, contudo, que se controlou. O medo era medo se fosse desconhecido - se o conhecêssemos não o temíamos. E de tanto experimentar o medo, de tanto ele a tentar tomar, ela habituou-se a ele. Agora gosta dele. O medo toma o resto. Toma os outros. Toma até as coisas. Mas a si não - ela é o que lhe apetece, o que acha que é, o sentido que lhe dá, com passado, com presente, sem necessidade de um futuro agora.
A si não, contudo, que se controlou. O medo era medo se fosse desconhecido - se o conhecêssemos não o temíamos. E de tanto experimentar o medo, de tanto ele a tentar tomar, ela habituou-se a ele. Agora gosta dele. O medo toma o resto. Toma os outros. Toma até as coisas. Mas a si não - ela é o que lhe apetece, o que acha que é, o sentido que lhe dá, com passado, com presente, sem necessidade de um futuro agora.
Ao avô João, que faz hoje anos - ou quem nasce não faz anos para sempre? -, esperando que goste de mim, nunca lhe disse, mas cada vez gosto mais dele.