Dei por mim aninhada à mesinha de cabeceira, tacteando a gaveta vazia com as mãos cheias de vontade de encontrar algo. E não dei com nada, senão com o meu desespero e a minha falta ou a minha lucidez e o encontro de mim mesma.
Alterno o seguro com vulnerável e o empírico com o teórico. É a metamorfose intermitente e incessante. Como casulo que liberta a borboleta, o meu corpo liberta a minha vontade. E tal como o casulo se tornaria inútil sem a borboleta, tudo o que em mim é físico é superado pela minha vontade. No entanto, a vontade retoma ao casulo e quando sai, fortalecida, renovada, resulta uma nova borboleta. E o meu corpo faz belas e diferentes borboletas, tão melhores, mais belas e mais espantosamente completas a cada metamorfose nova.
Que vontades enormes, tão maiores do que o meu corpo pequeno. Impertinentes, mas ao mesmo tempo com tamanha candura, que vontades tão doces. Ímpossíveis de abraçar, mas abraçam. Sensível às causas em que acreditam. E lutam por elas, inabaláveis, indomáveis. Cada vontade arde é o combustível da próxima melhor vontade, só há nova borboleta quando a anterior retoma ao casulo.
É um abstracto completo que não se molda ao mundo como esse concreto que já fui. E no dia que resultar a útima borboleta, hei-de olhar para o casulo, vendo-o de cima, a enterrar-se de olhos fechados e coração aberto, feliz por ter trabalhado para ser a melhor fábrica de borboletas do mundo.