Os últimos tempos tinham sido difíceis. Alternávamos em ritmo binário entre os gritos e o silêncio - e quantas vezes não gritou mais bravo o silêncio. E foste-te numa dessas tontices que o desentendimento gera, falhas de comunicação não solucionam e que o orgulho deixa irresolúvel.
Gostava de voltar ao tempo em que o amor sabia bem e eu queria mais amor da mesma maneira que queria mais bolachas de chocolate. Esse amor que abundava e que se semeava a si mesmo. Continuo com o olhar que implora e com os lábios que tremem ao procurar a melhor palavra. Tenho as mãos vazias e o coração cheio de promessas pequenas, daquelas que posso cumprir.
Onde se perderam as tuas histórias lentas que me contavas em voz baixa enquanto eu bebia um chá quente? Procuro-te no meu álbum de memórias e sinto aquela saudade que sentem os poetas - saudade do futuro.
Talvez pudesse haver um entre nós se voltasses, Não me importo que os teus termos concretos briguem com os meus abstractos; sinto falta dessas disputas que só pode ter quem tem quem o complete. Suporta com a tua mão firme a a minha insegura e com a tua razão educa a minha emoção. Tu como és, como só tu és, e como o teu perfume que jaz perdido nas gavetas que eram tuas não sabe ser.
Dou por mim aninhada junto à mesinha de cabeceira, tacteando a gaveta vazia com as mãos cheias de vontade de encontrar algo, mas terminam irrevogavelmente vazias. Essa gaveta há-de estar cheia de lágrimas.
Mas vem. Não vou encher novamente as tuas gavetas. Eu esvazio mais gavetas se preciso. E até arranjo espaço em mim mesma para as tuas coisas - porque foi aí que sempre precisaste de as guardar e a minha impaciência não se lembrou de arrumar espaço.