domingo, dezembro 4

Florbela Espanca

Um texto piegas. Não me escrevas um assim que não gosto. Mas já agora:

Quando te escrevi este texto não estava contigo. Não me recordo já se estava sozinha ou se estava abandonada, mas o certo é que me faltavas tu. Abri os olhos. Deixei que o cabelo balançasse e tornei a fechá-los. O frio prendia-me enquanto me concedia liberdade. Se tu estivesses lá, já não estava frio - para o bem e para o mal.  Tinha acabado de ler um daqueles contos de finais felizes para sempre e acabava agora de chegar à conclusão de que esse final era  um cliché e que além de um tom de bastante preguiça do escritor. o via como uma utopia generalizada por um clube de escritores preguiçosos que acharam boa ideia concluir histórias à pressa, pois nunca vi aqui, no mundo real, uma história de alguém próximo ou uma reportagem de alguém distante que se desse por bem concluir com "viveu feliz para sempre".

Eu não sou a cinderela, está mais do que visto. Já não espero que me venhas calçar o sapato. Não acredito, nem de olhos abertos, nem com eles totalmente cerrados. Mas também não preciso disso, muito menos das irmãs más dela.

Ai. Por momentos, o vento percorreu-me o corpo, como se fosses tu a rir-te e a pedir que me calasse, porque estava a ser tonta. Enchi-me dessa saudade, voltou a ausência com as memórias que as lágrimas acolhiam, voltaram incertezas citadas do que calámos vezes a mais em dias que gastámos sem nos abraçarmos. Para a Cinderela não serias assim. Eu não acredito nela. Às vezes também não acredito em ti. Não acredito quando me fechas a porta na cara e dizes que foi sem querer. Não acredito quando pedes desculpa ao longe. Não acredito quando me mentes. E sacudo-te a mão e viro a cara para o lado, como se fosse dona de mim. 

Estão a bater à porta. És tu, um ramo de flores e um pássaro branco – surgido do nada que guardavas do bolso. "Obrigada, vou só pousar o ramo no móvel de entrada". O teu sorriso traz o aroma da primavera. Já não há frio. Obrigada por me provares que sei nada de quase. Não precisas de vir com fadas, que bom que não viraste a minha abóbora da cozinha para uma carruagem - preciso dela para a sopa. Não sou a cinderela e ainda bem de novo: ela só tinha até à meia noite.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...