quarta-feira, janeiro 23

Não se fazem copos com pedaços de copos.

Se um copo estilhaça,
Se cai ao chão e parte,
Se por algum motivo quebra,
É difícil - quase impossível - voltar a ter o copo.

Mesmo se encontrados todos os pedaços irregulares,
Se apanhados do chão todos os ínfimos bocadinhos
(Ia dizer bocadinhos de copo, mas podem já não o ser se o não refizermos)
Teria de ser reconstuído com exatamente a mesma sequência de pedaços.

E mesmo se por sorte ou esforço encontrarmos essa sequência
(A contar com os grãos microscópicos de vidro em pó espalhados pelos azulejos e nas suas frinchas)
Não basta sobrepô-los -
Pedaços sobrepostos não geram um copo consistente.

Tivera sido mais fácil comprar um copo novo
E jogar fora os estilhaços.
Às vezes é mais eficiente e é mesmo do que precisamos. Para as visitas.

Mas se gostávamos mesmo daquele copo,
Talvez tenhamos de juntar os estilhaços e pensar no que fazer com eles.

O que não se pode fazer, contudo, é amontoá-los irrefletidamente e guardá-los no armário
Como se fossem um copo.

Copos desfazem se em pedaços de copos,
Mas com pedaços de copos não se fazem copos;
Às vezes fazem coisas que parecem copos
Mas não se iluda, minha querida: não são copos.

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