domingo, dezembro 9

Diagnóstico

A dona Ana procura com as mãos nervosas os óculos na mesa onde não os deixou. Procura-os depois no sofá onde também não os pousou. Trémula, a caminho do quarto (mas ainda sem ter saído da sala, porque a idade a leva num andar lento) deixa que adivinhem o que tenciona fazer e tomamos-lhe a vez na busca. Ajudamo-la a sentar, com cuidado, no cadeirão dourado da sala de estar e pomo-la a ver televisão. "Fique aqui tranquila que eu vou lá buscá-los" e vamos buscar os óculos, mas não há como a deixar tranquila. A Dona Ana tem um problema de lucidez.

Tal que regressamos com os óculos nas mãos e já está inquieta de novo. Não sabe como adivinhamos que precisava dos óculos - como tínhamos combinado há segundos atrás. Não sabe se é manhã ou já de noite. Não sabe se é hoje ou amanhã. Sabe, contudo, sempre que está para ser fim de semana que é quando lá vai a neta. E descobre com muito desgosto que é segunda-feira quando acorda e ela já lá não está. "Podia distrair-te para que perdesses o comboio", diz. Às vezes diz antes mais diretamente "Mas tu tens mesmo que ir trabalhar?". Ninguém leva a mal, todos se riem, a dona Ana tem um problema de lucidez.

A dona Ana quer passear. Vai de mão dada, devagar, e está tão dependente ao andar que a sentimos no nosso colo. Enche-nos de beijos quando estamos cansados para falar e de conselhos que ouve no telejornal que já estamos cansados de ouvir. É o que sabe do mundo lá fora, durante o dia, porque as suas pernas estão boas para estar em casa e não fazem os caminhos de que sente saudade na alma e no corpo de ter capacidade para percorrer. Reclama, muito, chorosa, de não se jantar sempre à mesma hora, de se passar tanto tempo a trabalhar e pouco em casa, de se ligar tanto ao futebol. Toda a gente perdoa e a sossega, é sabido que a dona Ana tem um problema de lucidez.

Estava a dar um jogo para o campeonato, mas fazemos-lhe a vontade e procuramos numa aplicação um vídeo de Fátima. Sem pedir permissão para se levantar, afasta a cadeira e, comovida, vai ao encontro da imagem da televisão para ver mais perto - há coisas que devem poder ser bem vistas. Atravessa a sala toda e quem lhe dera ter um lenço para acenar. Estamos todos a conversar e a dona Ana está ali mas também não está. Omnipresente e omniausente. Canta alto e com lágrimas no rosto moreno e ninguém lhe pede que pare de o fazer, a dona Ana tem o tal problema de lucidez.

Dá os melhores e mais meigos abraços. A tremer, a contar tudo aquilo por que teve de passar para estar ali, naquela cadeira, de onde sai a tanto custo e esforço e para a qual volta com não menos esforço e custo. Que sorte que temos de a ter ali connosco. Certamente é uma sorte também para a dona Ana ter-nos, mas a dona Ana está tão revoltada com os infortúnios, tão profundamente triste e tão secretamente (compreensivelmente) assustada que resmunga. Ai dona Ana, quem nos dera poder sossegá-la. Damos-lhe a mão e ficamos ali com ela. O tempo que for preciso, tudo o que for preciso, ninguém lhe nega nada: a dona Ana tem um problema de lucidez.

Já à noite, quando todos dormem menos ela, chama-nos. Com o silêncio tem receio de que tenhamos saído todos e nos tenhamos esquecido. Mas não nos esquecemos nunca da nossa querida dona Ana. Só que para garantir de que assim o é, cá vou eu ao seu encontro, de olhos meios fechados mas coração totalmente aberto. Dei contudo no caminho por mim a pensar que ainda não diagnostiquei o problema de lucidez da dona Ana em relação aos demais - não sei se lhe falta ou se a tem em excesso.

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