domingo, dezembro 9

O tempo é o mesmo que dantes

Não tenho tido tempo para escrever.

Tenho tido o mesmo tempo de sempre
Para fazer todas as coisas,
Mas cada vez dedico mais tempo a menos coisas
E entre todas as coisas que tenho feito
Nenhuma delas tem sido escrever.

Oh sim, tenho tido tempo para fazer muitas outras coisas inúteis
Mais apreciadas pelos meus pais -
E com que certamente os maço muito menos
Porque tenho muito menos interesse nelas.

Choro a ver filmes, a ouvir ópera, a passear de barco.
Também choro a fazer contas às vezes,
Mais ainda quando faço contas à vida,
Mas isso são outros choros
- Que não vem da intuição mas do estômago.

Fazia um desenho, mas não tenho pintado.
Na realidade nunca pintei antes;
Decidi numa noite começar a fazê-lo no dia seguinte
Mas nesse dia cresci e já não deu tempo.

Agora que faço coisas importantes
(Que em nada importam à arte)
Não posso sequer voltar a cantar com candura.

Já não se fazem só as coisas que mais se querem,
Faço muitas coisas que quero assim-assim.

Como era bom fazer-se coisas que mais se quer
Mesmo sem se ter jeito...

Bom, agora faço coisas para as quais não tenho mesmo jeito,
Mas por estas pagam-me,

Então estas já são coisas a sério,
Estas passam à frente na fila do tempo
E a filosofia fica lá atrás à espera
E chega a meio da tarde e o banco fecha
E quem não tem vez não é atendido.

1 comentário:

  1. Como sabe bem voltar a ler textos teus. Uma brisa de ar fresco num excelente dia para escrever eheh. Como uma prenda que não sabia que existia!

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