segunda-feira, maio 7

Zona de Conforto

Que confortável aqui, na sala, com a lareira acesa. Não é preciso mais do que alguma inteligência emocional para ler o que se passa com quem nos rodeia. Perseguir o brilho nos olhos, ler o que desenham os movimentos dos braços, deduzir o que escreve a postura corporal. A magia da zona de conforto que permite que cada movimento tenha intencionaladiade, voluntária ou involuntária, da parte do executante; a liberdade concedida que torna cada gesto passível de ser examinado.

Lá fora, pelo contrário, não. Pode ser intencional, pode ser uma mera consequência, pode não ser absolutamente nada. Faz tanto frio que as pessoas se abraçam, correm de umas para as outras freneticamente, procuram aquecer-se genericamente. Estão tão habituadas a isto que mesmo sem propósito se aproximam. Gostem ou não de desporto, praticam-no. Fisicamente, numa primeira fase, psicologicamente, nas que se seguem, emocionalmente, sem que se apercebam. Há uma ginástica mental exigente a que quem vive sujeito a flutuações de temperatura, chuva e vento se submete gradualmente. À berma da estrada e da tranquilidade. A disponibilidade física para suportar o desconforto pressupõe e ciclicamente causa (como que na história da galinha e do ovo) uma flexibilidade mental. Um abraço lá fora pode ter a motivação de um abraço na sala, mas também pode não ter. Pode ser só frio. Pode ser só saudade e vontade de morar numa casa. Pode ser só cansaço de andar na rua. Pode ser um abraço porque se abraça - bastar-se a si próprio, tão puro, mas oco quanto isso.

O dicionário de quem vive lá fora no mundo tem tantas mais interpretações. Tem todas que é o mesmo que não ser possível ser objecto de nenhuma. É mais difícil de se entender, se é que pode haver entendimento quando nada significa nada que não tudo. Se algo pode querer dizer qualquer coisa, se qualquer coisa pode ser qualquer coisa, se tudo significa tudo, então o que significa significar? Deixa de haver significado para significar, não há categorização, tudo é tudo implica que nada chegue concretamente a ser nada. Há uma indiferenciação. E isso pode ser mais interessante ou mais insosso ou as duas simultaneamente. Não há exatamente um propósito ou um despropósito - chamar-lhe-ia um impropósito. Liberal, aparentemente liberal, mas fundamentalmente condicionado. A liberdade está simulada no à vontade físico, mas este é meramente ditado pelo desconforto. Oprimidos e forçados a viverem na ausência de entendimento.

Porque é realmente fácil ser-se abraçado lá fora. É também fácil ganhar coragem para dar um abraço. Toda a gente se abraça ao frio, ninguém estranha, ninguém recusa, ninguém julga. É bom - mas será tão bom como um abraço na sala? Onde devo ficar para o teu abraço? Para onde combinamos a bebida que ficamos de tomar hoje? Se quiser abraçar e ser abraçada, realmente basta andar lá fora. É o mais adequado, o mais rápido, o que oferece mais possibilidades. Um café numa esplanada ou num rooftop com vista sobre esta cidade linda. Mas, se em vez do abraço a minha prioridade for o seu simbolismo, se quiser perceber se me queres abraçar, se quiser a liberdade de poder traduzir o teu abraço, então não pode ser lá fora. Estou à tua espera na sala. Claramente na sala e claramente à espera. Só assim há condições para o entendimento.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...