Em que estás a pensar, Alice? Costumava tentar adivinhar e
escarnecias de mim. Não gostavas quando te olhavam nos teus olhos sem permissão
que (ao invés das tuas expressões tímidas) eram janelas abertas e a tua alma gostava de
se pôr à janela, era de lá que ela via o mundo e eu (que sou do mundo) gostava
de me pôr à tua frente e ver-te a alma. Vias-me, Alice? Era a mim que querias
ver ou eu era um entrave a veres o mundo? Os teus olhos eram Primavera, mas
agora são Outonos cerrados. Deixam-se levar murchos por ruas envelhecidas. Onde
andarão eles postos agora? - que é como quem diz, "A quem andas a conceder que te
veja a alma?". Ficaste com raça de cão
que não foi amestrado, cerraste as portas do teus olhos à chave e não ma deste
a mim. Já não te via a alma, que é feito dela, Alice? Já ouviste falar de schrodinger?
O gato fica dentro da caixa, não se vê o mais o gato, nunca se saberá se está
vivo ou morto: e a tua alma também não a vejo.
Tens-te tratado bem, Alice? Cheiravas a amor e a cuidado.
Tinhas longos cabelos, uma cinta fininha e eras alta. Podias comer mais, mas
comias cada vez menos, (já te estavas a preparar para me escapares por entre os
dedos). Penteava-te com as mãos de manhã, dizias irritada que te despenteava e ias arranjar-te
antes que eu também tentasse pentear tudo o que tu eras por dentro. Lavavas-te, sem margem para ficares com qualquer toque meu. Às vezes dizias “Não
vens?” e eu pensava logo “Ai não que não vou”, mas não dizia, porque fica mal
mostrar-me tão entusiasmado quando toda a tua linguagem desflora contida, o
auge da obscenidade. Tomávamos banho e a água lavava todo o nosso íntimo, mas a
água não te lava por dentro que chegue. O meu coração lavava-se embebido nos
olhares que me fazias, mas e tu, talvez nunca te tenha sacudido a terra velha dos
sítios onde andaste.
Estarias suja, Alice? Eu esfregava-te por fora e tu
esfregavas-me por dentro e talvez
achasse que te lavei, mas tu tenhas fingido. Todos os gritos que deste, todas
as vezes que olhava para ti e te via com um céu nos olhos, podes ter sido um
espelho. Lias-me os desejos e espelhava-os nessa face que tão apaixonado
beijei. Quando me pedias mais, nunca te dei mais que chegasse. Quando viajávamos,
nunca fui longe o suficiente - o meu longe para ti é tão perto, o meu longe para
mim é a rua que faz um cruzamento com esta e o teu longe são voltas ao mundo. Ia
tratar-te sempre bem, mas mereces um bem maior. Vi isso quando te dei o meu
coração que só bastou para o usares como pendente de pulseira no pulso. Fica-te
bem, tudo te fica bem. Ficavas bem cá em casa, mas como sabes ela é pequena
para ti. Comprei aquele sofá castanho, queria que fosse nele que nos deixávamos
envelhecer. Mereces estar bem, só quero que saibas isso. Mas, Alice, em que
sofá andarás tu?