terça-feira, abril 7

Crónica de um amor unilateral

Onde andas, Alice? Faz tanto frio lá fora, tenho medo que andes lá fora, fico trépido de te pensar fria debaixo de uma ponte. E se em vez de desabrigada estiveres quente, é que morro. Ai de mim se estás bem na casa de outro. Eu aqui em casa sem estar em casa. A minha casa eras tu. Sou um vagabundo condenado a ser nómada se nunca mais voltar a estar dentro de ti. Se encontraste o que querias, não o percas como te perdi a ti (ou talvez o momento em que me encontrei contigo tenha sido aquele em que me perdi e este seja só aquele em que me apercebo). Não vou voltar mais a percorrer-te com o tato, a deixar-me pousar em ti com os sentidos e a descobrir-te desta forma como os Homens se descobrem uns aos outros que é para mim a única coisa (que sem ser arte) se eleva da vida terrena para a eterna – e que bom era sentir-me eterno contigo. És pornográfica, Alice, a melhor e mais elegante pornografia que coube no corpo de uma mulher e que deliberadamente concedes que provem quando te vêm fisicamente e (mais ainda) quando outorgas que saibam como pensas.

Em que estás a pensar, Alice? Costumava tentar adivinhar e escarnecias de mim. Não gostavas quando te olhavam nos teus olhos sem permissão que (ao invés das tuas expressões tímidas)  eram janelas abertas e a tua alma gostava de se pôr à janela, era de lá que ela via o mundo e eu (que sou do mundo) gostava de me pôr à tua frente e ver-te a alma. Vias-me, Alice? Era a mim que querias ver ou eu era um entrave a veres o mundo? Os teus olhos eram Primavera, mas agora são Outonos cerrados. Deixam-se levar murchos por ruas envelhecidas. Onde andarão eles postos agora? - que é como quem diz, "A quem andas a conceder que te veja a alma?".  Ficaste com raça de cão que não foi amestrado, cerraste as portas do teus olhos à chave e não ma deste a mim. Já não te via a alma, que é feito dela, Alice? Já ouviste falar de schrodinger? O gato fica dentro da caixa, não se vê o mais o gato, nunca se saberá se está vivo ou morto: e a tua alma também não a vejo.
Tens-te tratado bem, Alice? Cheiravas a amor e a cuidado. Tinhas longos cabelos, uma cinta fininha e eras alta. Podias comer mais, mas comias cada vez menos, (já te estavas a preparar para me escapares por entre os dedos). Penteava-te com as mãos de manhã, dizias irritada que te despenteava e ias arranjar-te antes que eu também tentasse pentear tudo o que tu eras por dentro. Lavavas-te, sem margem para ficares com qualquer toque meu. Às vezes dizias “Não vens?” e eu pensava logo “Ai não que não vou”, mas não dizia, porque fica mal mostrar-me tão entusiasmado quando toda a tua linguagem desflora contida, o auge da obscenidade. Tomávamos banho e a água lavava todo o nosso íntimo, mas a água não te lava por dentro que chegue. O meu coração lavava-se embebido nos olhares que me fazias, mas e tu, talvez nunca te tenha sacudido a terra velha dos sítios onde andaste.
Estarias suja, Alice? Eu esfregava-te por fora e tu esfregavas-me por dentro  e talvez achasse que te lavei, mas tu tenhas fingido. Todos os gritos que deste, todas as vezes que olhava para ti e te via com um céu nos olhos, podes ter sido um espelho. Lias-me os desejos e espelhava-os nessa face que tão apaixonado beijei. Quando me pedias mais, nunca te dei mais que chegasse. Quando viajávamos, nunca fui longe o suficiente - o meu longe para ti é tão perto, o meu longe para mim é a rua que faz um cruzamento com esta e o teu longe são voltas ao mundo. Ia tratar-te sempre bem, mas mereces um bem maior. Vi isso quando te dei o meu coração que só bastou para o usares como pendente de pulseira no pulso. Fica-te bem, tudo te fica bem. Ficavas bem cá em casa, mas como sabes ela é pequena para ti. Comprei aquele sofá castanho, queria que fosse nele que nos deixávamos envelhecer. Mereces estar bem, só quero que saibas isso. Mas, Alice, em que sofá andarás tu?

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...