Se eu casasse contigo, ia ser muito infeliz. Acordava sem pensar em passear. Sair de manhã? Só se fosse sozinha, de manhã estás bem é a dormir, "ó miúda, faz pouco barulho, cozinha qualquer coisa do frigorífico que estou muito cansado". Tal e qual. Beijávamo-nos na cozinha e no sofá, mas cada vez menos, és mais do tipo que prefere mandar piadas a dar abraços. Ia contar-te como me correu bem no escritório e tu dizias "ai que bom" num desinteresse algures entre o usual-entediado e o homossexual-disfarçado. Dizias "estou com fome, o jantar ainda não está pronto? Sou sempre eu que faço tudo...". Ias ser mais o que desfazia, mas lá íamos para a cozinha juntos, tu cozinhavas - por acaso cozinhar sempre fizeste bem - e eu fazia um bolo. Passavas um dedo no resto do chocolate na tigela e pintavas-me a cara. De todas as vezes, sem evoluções. Nunca gostei, mas forçava sempre uma risadinha, não fosses tu descobrir depois de tanto tempo que afinal não me conheces.
A comida ficava pronta. Mesmo a tempo de quebrar a conversa que nunca estaríamos a ter. Não somos compatíveis para falar de nada. Sentávamo-nos, a televisão ligada e eu de costas para ela, a não poder olhar para nada sem ser para ti, que situação constrangedora. Ias passar-me o sal e eu nem ia pôr muito, de tão habituada estar a que tudo na nossa relação fosse insosso. Eu dizia a "comida está boa" e tu dizias "Obrigado". Levantavas a mesa, púnhamos tudo para a sobremesa que tu pedias para comer no sofá, porque já estava a dar aquele programa sobre motores de aviões da força aérea onde não conseguiste entrar. Eu dizia "Ok" e tu dizias "Amo-te". Podias ter dito "ok", era a mesma coisa. Era igual dizeres "Amo-te" ou "Toma um bocado de bolo", a menos que eu estivesse com fome, aí preferia um bocado de bolo.
Ficava noite. Eu ia pôr a louça na máquina a sentir-me mal por não ser a pessoa certa para ti. E tu não eras a pessoa certa para mim. A solução era acabarmos, mas antes de acabarmos tínhamos de tentar outra vez e tu não sabias tentar, então tinha de tentar eu por dois. Só tínhamos a ganhar em sermos só amigos. Especialmente eu naquela hora, porque estava a lavar a louça de duas pessoas. Sacudia os restos para o lixo e pousava os pratos na banca onde os deixava molhar pela água quente da torneira e por lágrimas minhas que caíam não sabia bem porquê. Esfregava com a esponja antes de os pôr na máquina - queria tudo em pratos limpos e o maior prato sujo naquela cozinha era a minha cabeça confusa.