"António, apaga a luz, foi um dia longo.", digo isto e beijo-o. Pode ser o dia mais cansativo do mundo, há sempre tempo para beijar o António. Não demoro o tempo todo do mundo a beijá-lo, mas quando paramos de nos beijar fico com a sensação de que nem que passasse a vida inteira a beijar outro alguém me saberia a tanto. Os beijos do António são de outro mundo, um mundo à parte, talvez ele me leve para esse mundo quando me beija e me deixe estar lá, muito tempo, e quando os lábios dele largam os meus, eu volto aqui, sem me lembrar desse mundo paralelo, mas certa de que este beijo foi para lá do que é humano.
Acariciamo-nos, muito. Até sabe bem ter um dia mau, para me queixar abraçada a ele e torço para que também ele trabalhe muito na empresa de que é diretor, para me pedir uma massagem enquanto me conta como a vida é dura e eu quase acredito, mas depois lembro-me que o tenho a ele, nada é rude quando se dorme e se acorda com o António.
Amar é isto, é dormir ao lado dele e acordar ao lado dele e sentir que naquela cama dormiu um só. É fazermos as regras do jogo e jogarmos sempre para ganhar. É termos muita farra e muito gosto, juntos e separados e chegarmos ao ponto em que vamos dormir e ser um com o outro que estamos - não importa o que acontece de manhã na empresa, à tarde no café ou à noite no bar. Sempre que acaba o dia, é na nossa cama que nos encontramos. Juntos, bem juntos. Num encontro romântico físico e psicológico, que é a forma mais difícil de se enrolar com alguém.
E nós estamos assim. Se o dia corre mal, ou apagamos as luzes e falamos ou acendemos as luzes e compensamos; se corre bem, ou apagamos as luzes e no escuro deixamo-lo correr melhor ou as acendemos e já não somos nós, são duas crianças a festejar no corpo de adultos, são vontades e desejos a amar e querer gritar, e mais que gritar eles, fazer gritar os do outro e amar tudo isso. Todos os dias são bons motivos para amar quando se dorme com o António.
O amor faz-se e acontece. O amor constrói-se. O António faz amor para mim e dá-mo nos mimos que me faz e no olhar com que me cobre o corpo. O António dá-mos no sofá e no cinema e no telhado. Dá-mos quando me abre a porta do carro antes de eu sair e de surra por debaixo da mesa quando vamos almoçar a casa dos meus pais. Gosto tanto dele que tudo o que ele faz são mimos e o mimo de volta de cada vez que ele mos dá, que é sempre. Sempre. O António faz amor comigo sempre, não importa o dia, como é que alguém consegue pensar no seu dia quando já é noite e a noite é para estar com ele ali? O António acende-me e apaga-me a luz e volta a acendê-la e apagá-la e o meu interruptor está no poder dele e que bem que ele o controla.
O amor faz-se e acontece. O amor constrói-se. O António faz amor para mim e dá-mo nos mimos que me faz e no olhar com que me cobre o corpo. O António dá-mos no sofá e no cinema e no telhado. Dá-mos quando me abre a porta do carro antes de eu sair e de surra por debaixo da mesa quando vamos almoçar a casa dos meus pais. Gosto tanto dele que tudo o que ele faz são mimos e o mimo de volta de cada vez que ele mos dá, que é sempre. Sempre. O António faz amor comigo sempre, não importa o dia, como é que alguém consegue pensar no seu dia quando já é noite e a noite é para estar com ele ali? O António acende-me e apaga-me a luz e volta a acendê-la e apagá-la e o meu interruptor está no poder dele e que bem que ele o controla.
Partilhamos o quarto e as vidas e um dia talvez façamos família. Até lá, falamos sem vergonhas, de luz acesa e/ou apagada, porque a luz importa muito, mas também importa pouco. Falamos como amigos, falamos como rivais e falamos como apaixonados, embora apaixonada esteja eu sempre, mesmo quando estou calada. Falamos com palavras e com o corpo - e os nossos corpos conversam tão bem. Argumentam e contra-argumentam, desenham linhas de pensamento onde o pensamento por si não chega, criam entendimentos que transcendem as barreiras da linguagem e chegam mesmo, esbaforidos, a um consenso final, a um desejo de amar mais ainda, a um desejo de amar por tudo isto e por nada disto, porque este amor vem num maremoto que não volta ao mar e que explode no nosso corpo e, por alguma razão que a física não explica, é bom explodir por dentro de amor por ti, António, e de te poder a amar a vida toda, todas as noites.
Cansas-me e descansas-me. Entendes-me e desentendes-me e a lógica é tão boa contigo, é tão pura e tão ilógica que os problemas existem, mas não têm problema, e de repente já te amo e amo amar-te sem saber porque te amo, só pelo facto de poder amar-te e de amar amar-te, como é bom amar alguém que se ama amar e que se ama de facto. Iluminas-me, o meu quarto tem luz contigo, os meus pensamentos também. As minhas emoções? Tu acende-las. Todas as noites acabamos e começamos aqui. Tenho um amor tão grande por ti, que já não o tenho dentro de mim, mas cá fora. Já não o tenho, ele é que me tem a mim e me põe em tudo, me envia para ti e eu aceito, não podia ele ter escolhido melhor. O meu quarto foi feito para ser o teu quarto, tal como o meu íntimo foi feito para ser o teu íntimo. Exploramo-nos e quanto mais longe vamos, mais caminho temos para andar. Quero percorrer-te por dentro, António, quero dormir com tudo o que és, quero que durmas com o que sou e não sou, quero ser toda, inteira e tua e toda inteiramente tua e que faças amor com tudo isto que é mais do que o meu corpo. Fui feita para me partilhar contigo, o meu dia acaba sempre aqui, resume-se a este momento em que sou feliz ao teu lado, e em cima de ti e por baixo e, particularmente, por dentro. O meu lado de dentro fica à superfície quando me envolves e me perfuras e eu nao quero esconder-to, nem mostrar-to: quero que mo encontres e o cuides.
Pode mudar tudo, António. Podemos pintar as paredes, podemos mudar os lençóis, podemos trocar a cama de sítio, para que tu tenhas a vista para a árvore do nosso jardim que com tanto gosto plantaste. Que as luzes se apaguem e se acendem e alternem, mas que sejas tu a carregar no interruptor. Que mudemos os candeeiros e a mobília e o chão, que mudemos a cama se for preciso e que eu a carregue contigo para uma carrinha enorme, porque pode mudar tudo no nosso quarto, o que importa dele é que não nos mudemos a nós.
Pode mudar tudo, António. Podemos pintar as paredes, podemos mudar os lençóis, podemos trocar a cama de sítio, para que tu tenhas a vista para a árvore do nosso jardim que com tanto gosto plantaste. Que as luzes se apaguem e se acendem e alternem, mas que sejas tu a carregar no interruptor. Que mudemos os candeeiros e a mobília e o chão, que mudemos a cama se for preciso e que eu a carregue contigo para uma carrinha enorme, porque pode mudar tudo no nosso quarto, o que importa dele é que não nos mudemos a nós.