sexta-feira, setembro 26

Trabalho - o caso da empregada feliz

A minha empregada não faz nada de especial. Limpa pouco, nem tira os livros da prateleira, contorna-os só, mas como eu também não os leio, não me importo que ela os deixe para lá, ao menos sempre servem para cobrir o pó que está por trás. "A casa é grande, dá muito trabalho, senhor" e de facto daria muito trabalho limpar bem aquela casa, trabalho que ela não está para ter, mas fica na mesma as horas suficientes ao ótimo trabalho que ela não faz lá em casa, eu pago-lhe à hora.

Ela é muito animada, parece uma criança, faz bolos para os meus filhos em vez de tirar as teias de aranha do canto do quarto dos convidados e eu não me importo, também não tenho convidado ninguém. Talvez até seja bom ela estar com eles, já que eu só tenho tempo para a empresa, meu ex maior amor, meu atual maior ódio.

Ela é muito engenhosa, aspira pontos estratégicos da casa, incentiva-me a comprar móveis novos para não ter de limpar o chão por baixo deles e cobre-os com paninhos muito bonitos de uma cor próxima de um branco sujo (que ironia). Passa a ferro muito bem, é uma verdade, às vezes ensina a minha filha a fazê-lo e fica a avaliá-la, a finória, mas é bom para as duas e as duas gostam e a situação, de tão ridícula, mostra-se engraçada.

Ela é muito segura, parece que a ouço, "Ó senhor doutor, já sabe como é, a casa é grande". Mas ela chega para a casa toda. Liga o sistema de som muito alto, adora ouvir música, adora cantar pela casa toda, encher a casa de vida. E aquela vida que ela traz, parece que limpa o pó, quando ela está na casa ninguém repara se está limpa ou suja.

Ela é muito feliz, gosto da felicidade que tem nos olhos, que mãos habilidosas que tem, podem fazer tudo e escolhem fazer o que ela quer que façam. Deixo-a ser assim, quem me dera poder ser assim também, ter um patrão como eu - já não sou o meu patrão há muito - e uns miúdos para cuidar - o pior é que os tenho e não me dou conta disso. Deixo-a estar assim, que rica empregada, nem lhe chamo empregada, gosto dela, ela não me obedece e está tudo bem, talvez até goste mais dela por ser assim. Deixo-a estar assim, porque todos nós somos empregados de alguém e se o que ela não faz não traz mal a ninguém, que o que ela faz a faça feliz a ela, sempre é para ser felizes que vivemos, pelo menos eu acredito nisso.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...