Gostava de ziguezaguear. Sim, sem rumo. Rumo incutimos nós, toda a nossa vida - à noite eu ia por onde calhasse e isso sabia-me bem. Gostava de andar descalça e sentir a areia fria entre os dedos dos pés. Gostava de me deitar nela e bagunçar o cabelo como quem bagunça as memórias e ficar com ela entranhada nele como quem pode ser criança para sempre. Gostava de correr no escuro, apenas com a luz de um farol que iluminava o caminho e não a mim, e sentir que corria para lá. "Lá onde?". Sabia lá eu e não importava. Essa sensação de indeterminação, que tanto atormenta os dias, era um descanso na praia; mais, era o comburente do desejo.
Fazia-me almejar ir. Era como se quando fosse nada levasse. Nem físico, nem psicológico. Ia eu vazia para me encher de futuro e só não digo que podia ser o que quisesse, porque a minha cabeça ia vazia também e eu não queria nada, não desejava nada, não esperava nada. Tudo em mim se transformava em devir, toda eu era independente e dependente no mesmo instante, era uma meditação natural, era o nirvana puro.
Lembro-me de que pedia apenas uma coisa: gostava de imaginar que podia sentar-me numa rocha e pescar. Ridículo, talvez pareça ridículo. Mas foi o meu mais profundo pedido, o que mais de mim veio, o meu segredo que ainda guardo em mim e que, a ter três desejos, três vezes pediria esse mesmo, porque eu não queria ser pescador de peixes, mas de estrelas. Queria poder atirar o anzol para o céu e escolher, uma a uma, estrelinhas do céu.
Diziam-me que quem morria era uma daquelas estrelas. Então queria pescar estrelas e ouvi-las. Um pouco, apenas. Não as queria trazer de volta - coitadas -, mas ouvi-las, poder ter o prazer de ficar calada e apenas ouvir, sem compromisso, sem que estranhem, sem que me chamem tímida. Queria, mais do que tudo, repescar o meu avô. Não me levem a mal, mas ele sempre foi a minha prioridade. Lembro-me pouco dele, mas a minha memória é vã. Mas se sinto que gosto muito dele, então é porque ele era um homem de quem se gostasse muito. Sinto e sei que sim. Queria muito poder agarrá-lo e guardá-lo no meu balde e depois mandá-lo de volta para lá, para cima, onde sabia que ele era feliz e tinha muitos amigos. Mas mesmo que arranjasse uma cana, nunca seria grande o suficiente, porque o meu avô era ótimo, logo a estrela dele devia ser das mais altas.
Então imagino que o pesco às vezes. Em sonhos, em momentos de indecisão. Não preciso de o conhecer bem, em vez de imaginar o anjinho e o diabinho, imagino o meu avô. E sim, ele é melhor do que o anjinho, porque a haver um diabinho, o meu avô torná-lo-ia bom. E a decidir, penso no meu avô a sorrir. E por aí me rejo, por fazer o melhor do melhor modo possível, modo possível como o meu avô quer que eu faça.
Talvez por isso me tenha dedicado a pescar cá na terra. Pesco homens e não preciso de cana. Só de um coração que olhe por perto, de umas mãos que estejam disponíveis e de um olhar que veja por dentro. E mais do que tudo, amo com um coração enorme o meu pai, o filho do meu avô, que parece ter herdado muita magia dele e não se apercebe disso. Talvez herdemos isso uns dos outros, de nos esquecermos do que valemos. Então o meu avô lembra-me que posso valer tanto quanto quiser. E se alguém se esquecer, eu relembro. E o meu pai é um bocado teimoso.
Tem essa mania de que sabe sempre tudo (doença de quem sabe muito) que o impede de ter a graciosidade de se sentir culpado às vezes que o entrava às vezes. Tem um fanatismo quase sádico por futebol apenas ultrapassado pelo orgulho nos filhos, como nem um pai que tivesse filhos melhores sentiria algum dia. Tem um olhar cansado - será que te (des)canso, pai? - mas pronto, sempre disposto a servir o outro. É cético como quem já se cansou de acreditar no mundo onde vive e quem apenas espera que tudo o que lhe dêem na verdade lhe tire alguma coisa. Tem um coração que não recebe qualquer um e tem um abraço fortíssimo, firme. Tem as melhores lágrimas de comoção que algum dia vi, porque o meu pai não chora por qualquer coisa, o meu pai chora por mim, pelo meu irmão e pela minha mãe. O meu pai engole muito e às vezes erra. Nem sempre pede desculpa, só quando sente mesmo que errou. E levei alguns anos a entender que isso só faz com que quando peça desculpa, mereça mesmo o perdão. E mesmo que erre mais vezes, perdoá-lo-ia infinitamente, porque o meu pai sabe olhar para mim como se fosse a melhor filha do mundo e o facto não o ser, faz-me querer sê-lo. É como o meu avô: é a minha estrelinha. E não me quero esquecer nunca de que a ele posso pescar sempre que quiser, posso ouvi-lo sempre, posso aprender com ele e queria ensiná-lo.
Para sempre serei sua filha, mesmo quando formos os dois estrelas. E se lá no céu não podermos falar mas apenas olhar um para o outro com o sorriso de dentro, que até lá digamos tudo o que tivermos a dizer para sempre, que nunca nada fique por dizer nem por sentir, que eu nos pesquemos e repesquemos dia após dia, que sejamos o lar um do outro e acima de tudo que saibamos isso, meu pai, melhor pai do mundo, meu anjinho.