terça-feira, dezembro 10

Estações do quotidiano - (ii)

No meu tempo havia febre nos corpos. Mesmo quando o corpo - o dito corpo, as formas contornadas de roupa, o visível, o tapado, o coberto - não a incitava. Incitava-se ela pelo psicológico, criava-se pelo que não se via, mais até do que pelo que se via. Era uma febre pura, uma febre perversa, com tanto de doce como de picante, uma febre genuína. Já as de hoje querem repercurtir esse estado afectivo, esse desejo, esse arder, mas pegaram erradamente no conceito. É suposto o desejo estar no que é ocultado - e elas avacalharam todo esse místico do ocultismo. Dizem-se verão, querem ser o sol, andam como se fossem o sol, mas não passam de uns fornos, imitação rasca do verdadeiro. Deixou de ser bonito de se ver, porque não são quentes, não aquecem por dentro: apenas escaldam, aquele escaldar de quando o café está muito quente, demasiado, e quando se prova com expectativa de que esteja bom ele queima a língua e então cuspimo-lo logo. Ser forno é indigno, caríssimas (mais baratas do que nunca). É contra-natura, é tortuoso, é desvirtuoso. Retomem o caminho da natureza e apercebam-se de que não estão a causar febre no espírito: apenas no corpo, uma febre física passageira, tão fracamente incitada, que logo passa, tão de repente que não vale a pena, tão levianamente que facilmente pode ser causada por outra - qualquer outra, outra qualquer. A febre devia ser exclusiva. Não estão a aquecer, estão a queimar. Mais, iludidas, estão vocês a serem queimadas: estão apenas a ser o inteirior de uma porta metálica com ferrugem, a pedir que vos cheguem carvão para ficarem cada vez mais ridícula e desnecessariamente quentes. E isso, meninas, é tudo menos ser sol.

(Muito) Fraquinha

Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...