Já caiu de
pé. Já caiu sentada. Acho até que já conseguiu cair deitada. Já caiu sem sentir
bem a queda Sabem, daquelas vezes que caímos e só vemos o arranhão mais
tarde, e só sentimos a dor depois? Dessas quedas estranhas. Mas não as mais
estranhas de todas. Há ainda aquelas quedas de que não nos apercebemos onde as
demos, mas que doem. Pergunta-se "Foi esta quedinha-de-brincadeira que me
magoou assim?'. E com ela, sim, foi. Caiu muitas vezes a brincar. Ela brinca
consigo, os outros brincam com ela, todos brincam ela. Brincam
todos. Eles de pé. Ela no chão. Não tem mal, estavam só a brincar.
Poder-se-ia chamar-lhe uma dislexia mental, um
distúrbio que gerava impossibilidade de interpretação da realidade e a
fazia cair em erros em que ela achava que gostava de cair. Caiu
tanto. Caiu de forma tendencialmente infinita em todas as possíveis combinações
de erros.
Tem, contudo, desprezo disso que foi. E isso é alguma coisa. Recusa-se hoje a ver-se como isso, porque ela não é isso. Podia arrepender-se. Podia ter isso como algo de que se arrepende. Se lhe perguntassem se se arrepende de alguma coisa, podia responder «Sim. Arrependo-me disso.». Mas não diz. E não é por vergonha.
Tem, contudo, desprezo disso que foi. E isso é alguma coisa. Recusa-se hoje a ver-se como isso, porque ela não é isso. Podia arrepender-se. Podia ter isso como algo de que se arrepende. Se lhe perguntassem se se arrepende de alguma coisa, podia responder «Sim. Arrependo-me disso.». Mas não diz. E não é por vergonha.
É por saber que depois de andar lá no fundo do poço
onde a água tem bichos, depois de andar bem lá longe onde andam as irmãs
emprestadas da cinderela, depois de andar lá nos bosques onde a madrasta
da branca de neve lhe envenenou a maçã, depois de andar no oposto da
boa vida onde se rogam pragas a Deus e ao mundo dos homens, ela voltou.
Está de pé. É praticamente uma de nós, diferindo apenas no facto de não
julgar ninguém.
Se precisares de alguém chama-a. Ela ensina-te a levantar com carinho genuíno nas palavras e nos gestos. Não imaginas o que pode fazer por ti. Ela vai esgotar-se a fazer-te bem, vai dar a vida dela, pelas vidas dos outros. Ninguém tem tanto amor como aquele que conheceu o ódio. Nem que a odeies, ela vai amar-te sempre, porque sabe que todos temos novas oportunidades: e ela vai dar-te todas as que precisares.