Havia indecência em cada pequeno gesto que ele fizesse. Ela era inocente com ele, era clara, era objetiva, era toda sonhadora, lançava-se num futuro com ele e acreditava que o iam concretizar juntos - não, ela não sabia que não podia; já ele tinha a certeza, era ele quem lançava o jogo, como uma função onde ela via o domínio todo e ele já a tinha colocado a restrição e nunca chegariam a extremo livre nenhum, que não, no máximo, um máximo relativo. Ela confiava nele com um coração que amava por dois. Contava-lhe tudo, contava mesmo. E ele ouvia. Fingia que ouvia. Fingia tão bem. Que lindo que ele era a fingir que a ouvia. Era aquele ouvir de quem ouve mas não liga, aquele ouvir desligado do mundo, aquele ouvir de quem não quer saber, infelizmente para ela, um ouvir fingido que já tinha treino e que iludia intensas paixões. Tudo o que ele fazia, era como se não fizesse. Fazia-o para dar ideia que fazia, para dar ideia de que se importava, para dar ideia de que valia a pena amá-lo. E ela amava-o, de facto. Mas não valia a pena. Mas, ela amava-o na mesma. Ela era utilitarista, uma utilitarista burra, que só via a consequência, sem lhe ver a sua intenção obscura, desprendida de boa-vontade, desprendida de bem, desprendida de vontade. Antes fosse Kantiana, antes soubesse avaliar-lhe a intenção sem incorrer nessas falácias em que se dobrava, essas falácias que decorou, essas falácias que repetiu, essas falácias que a fizeram crer que era um amor limpo, sólido e mútuo. Mas não era. Era tudo fraco, era tudo falso, era tudo indecente, porque hoje sabe que puxasse por onde puxasse ele iria dizer-lhe que tudo se iria resolver e deixaria andar com um nível exponencial de desinteresse dissimulado. E ao seu amor-de-hoje, ela pede desculpa. Desculpa-a se ela exigir demasiado o extraordinário: é porque já sofreu por exigir menos do que o decente. .
(Muito) Fraquinha
Adiei por muito tempo escrever, Porque bastava-me pensar para saber Que sairía algo fraquinho. De cada vez que adiava Mais certezas me dava ...
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People get use to smells. When we spend too much time in a room, we gradually stop to realize how it stinks. (Sometimes, it's our own r...