Tenho andado à procura da lua atrás da cortina branca de cetim do meu quarto. Porquê? Talvez porque nasci e como pedra ou rua ou terra que não sou, não me limito a existir.
Tenho necessidade de uma busca, de um sentido, de incutir algo em mim. No fundo, ser humano talvez se resuma (em parte) a isso: à satisfação das necessidades humanas, tão humanas, só humanas. Aprendemos tanto e parece que nunca temos a resposta certa para as perguntas mais lógicas. "Para quê? Porquê?". E um confronto rápido com isto, quando abalados com algo prévio que nos impeça de refutar a reles argumentação apresentada de modo agreste e repentino, faz-nos escorregar na falácia. Deprimimos.
Hoje, aqui e agora, manter-me de pé é complicado, por causa do vento e da chuva e dos trovões e do escuro e dessas pontas aguçadas que se me apontam e me encurralam. Procuro a resposta - ai, como é humano reagir assim - na minha memória que agora tanto vacila e vacilo também eu, calcando a verdade de braços abertos à ilusão. A minha identidade, essa com que eu me identificava, parece insuficiente; eu, desesperada, insaciada com o seguro, pouso-a no passado e deixo que seja consumida por outrém.
Os ladrões levam o que era 'eu' e vandalizam-no sem dó nem piedade, como eu fazia às folhas onde rascunhava aquilo que nunca cheguei a dizer. Mas da pouca identidade que sobra, daqueles pedaços que eu consigo alinhar como se fosse um daqueles puzzles que fazia aos quatro anos, surgimos eu e tu e eles e percebo que a identidade não tem só a ver comigo, mas com tudo o que experenciei: onde estive, o que fiz, quando cresci, por quem chorei.
Gostava desses ladrões que me dissessem um "desculpa" ou de algo decente como já não vejo vir de deles. Essa falta de respeito por aquilo que eu achava que podiam ser deu-me vontade, clareza de espírito e maturidade. Construíram torres altas e frágeis, daquelas que parecem imponentes por fora, mas que por dentro se mostram tão ocas que o eco ressoa, como se o coração estivesse vazio. Eu deixo-os ir. O que vai, se for nosso, volta, já ouvi algo assim. Estou mais grata pelo que sou do que pelo que tenho e quanto ao que levaram de mim, como agora é passado, é apenas quem fui e não quem sou. Nem que voltassem a levar-me, depois de irem eu seria sempre eu de novo. É o que é.
Lá vão eles e lá vou eu. Para o mesmo lado ou para o outro, independente deles, quero lá saber deles agora. O presente mexe, roda e muda e a sobrevivência depende da adaptação. Só saberá andar quem melhor aprendeu - e não esqueceu - como gatinhar. E os ladrões, à bruta, a correr e a partir janelas, caem todos.
Tenho necessidade de uma busca, de um sentido, de incutir algo em mim. No fundo, ser humano talvez se resuma (em parte) a isso: à satisfação das necessidades humanas, tão humanas, só humanas. Aprendemos tanto e parece que nunca temos a resposta certa para as perguntas mais lógicas. "Para quê? Porquê?". E um confronto rápido com isto, quando abalados com algo prévio que nos impeça de refutar a reles argumentação apresentada de modo agreste e repentino, faz-nos escorregar na falácia. Deprimimos.
Hoje, aqui e agora, manter-me de pé é complicado, por causa do vento e da chuva e dos trovões e do escuro e dessas pontas aguçadas que se me apontam e me encurralam. Procuro a resposta - ai, como é humano reagir assim - na minha memória que agora tanto vacila e vacilo também eu, calcando a verdade de braços abertos à ilusão. A minha identidade, essa com que eu me identificava, parece insuficiente; eu, desesperada, insaciada com o seguro, pouso-a no passado e deixo que seja consumida por outrém.
Os ladrões levam o que era 'eu' e vandalizam-no sem dó nem piedade, como eu fazia às folhas onde rascunhava aquilo que nunca cheguei a dizer. Mas da pouca identidade que sobra, daqueles pedaços que eu consigo alinhar como se fosse um daqueles puzzles que fazia aos quatro anos, surgimos eu e tu e eles e percebo que a identidade não tem só a ver comigo, mas com tudo o que experenciei: onde estive, o que fiz, quando cresci, por quem chorei.
Gostava desses ladrões que me dissessem um "desculpa" ou de algo decente como já não vejo vir de deles. Essa falta de respeito por aquilo que eu achava que podiam ser deu-me vontade, clareza de espírito e maturidade. Construíram torres altas e frágeis, daquelas que parecem imponentes por fora, mas que por dentro se mostram tão ocas que o eco ressoa, como se o coração estivesse vazio. Eu deixo-os ir. O que vai, se for nosso, volta, já ouvi algo assim. Estou mais grata pelo que sou do que pelo que tenho e quanto ao que levaram de mim, como agora é passado, é apenas quem fui e não quem sou. Nem que voltassem a levar-me, depois de irem eu seria sempre eu de novo. É o que é.
Lá vão eles e lá vou eu. Para o mesmo lado ou para o outro, independente deles, quero lá saber deles agora. O presente mexe, roda e muda e a sobrevivência depende da adaptação. Só saberá andar quem melhor aprendeu - e não esqueceu - como gatinhar. E os ladrões, à bruta, a correr e a partir janelas, caem todos.